<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219</id><updated>2011-07-29T02:04:27.046-07:00</updated><title type='text'>Felipa de Souza</title><subtitle type='html'>A história de Felipa de Souza, uma mulher condenada por sua opção sexual,  em 1591 pela Santa Inquisição na cidade de Salvador, Bahia. 
O livro "Felipa de Souza" é de autoria de Patricia Toledo. É vedada toda e qualquer utilização e ou reprodução dos textos aqui apresentados, no todo ou em parte, sob pena das medidas legais cabíveis.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>22</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-1389022677465960501</id><published>2007-09-20T05:33:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:36:26.957-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Salvador, capital da colônia Portuguesa do Brasil, final do ano de 1591.A cidade vivia cheia de medo e apreensão. Visitadores do Tribunal da Santa Inquisição lá se instalaram em busca de pessoas que denunciassem hereges, cristão-novos, judeus e praticantes de atos imorais, além dos que não agissem de acordo com a fé católica apostólica romana.Crimes que antes não eram da alçada dos inquisidores, como os sexuais, passaram a ser considerados ofensas graves, principalmente bigamia, sodomia e a bestialidade.No Nordeste, a população era constituída por mais de trinta por cento de judeus, incentivados pelo governo português a fixar moradia no Brasil. A relação entre judeus e cristãos era até então de relativa paz; residia também ali um grande número de cristão-novos, os quais viviam a mesma situação de terror, já que se sabiam alvos diretos da Inquisição.Havia um patrulhamento da fé e de pensamentos: seu vizinho, seu filho, seu amante poderiam ser seus delatores. Não se podia confiar em ninguém.Em meio a esse clima, em meio ao povo que ia e vinha, caminhava o padre Pedro Martins. Subia a ladeira em direção à prisão onde estavam os acusados da Santa Inquisição que faziam parte do Tribunal de Lisboa. Não seriam julgados no Brasil. Pelo menos a grande maioria era encaminhada para o legítimo tribunal, em Portugal.O padre era jovem, mas a subida da ladeira já o deixava esgotado. Parecia que a curiosidade saía por seus poros em forma de suor. Visitaria uma mulher acusada de crime sexual, e só o fato em si já era inusitado. Enquanto caminhava, sua mente cristã se envolvia em mil teorias sobre aquela mulher.“Que anomalia!!!! Será que tem aparência normal de mulher? E o corpo, possui a mesma estrutura? Seria mesmo possível tal acusação? Como se dava o fato, afinal eram duas mulheres, aquilo contrariava todas as possíveis explicações! Deus não fez o corpo para ser usado dessa forma, que tipo de sensação teriam? As mulheres não foram feitas para cumprir o papel do homem, será que esta teria o corpo disforme na sua anatomia sexual?”.Quase nem se deu conta de que já estava diante da escadaria do prédio. Cansado, parou alguns segundos e subiu os cinco lances que o levariam até o guarda na porta do local.Cumprimentou o jovem:-Bom dia, meu filho!O rapaz se levantou confuso, não sabia se pedia a bênção ou se batia continência. Percebendo a indecisão do moço o padre o abençoou, perguntando onde poderia encontrar o sargento Dias, que o aguardava, pois tinha ordens expressas do Bispo para visitar uma das presas.E escuta o guarda lhe perguntar, cheio de maledicência:- O senhor veio aqui falar com uma das filhas do demônio? – riu – É só chegar àquela mesa ali e pedir para avisarem o sargento.O padre agradeceu e seguiu as instruções.Aquele lugar tinha uma aparência asquerosa, fosse pela sujeira acumulada, fosse pelas paredes úmidas, como se acima delas houvesse uma goteira. Parecia um lugar esquecido pelos homens e por Deus.Chegou até à sala do sargento, apresentou-se e repetiu o que havia dito anteriormente. O militar levantou-se e acompanhou-o até a cela em que encontraria a mulher.Desceram as escadas e pararam diante de uma das portas feitas de madeira maciça. Podia sentir-lhe o peso apenas olhando para ela, “um tronco de madeira”, pensou o padre.Encravada na peça estava uma pequena abertura, por onde, provavelmente, eram para ser entregues os alimentos.Observando por essa passagem, viu sentada em um canto a figura de uma mulher.Trajava uma espécie de camisolão feito de um tecido grosseiro que mais parecia um saco. A vestimenta rude dava a estranha sensação de incomodar a pele da mulher, que aparentava delicadeza.A prisioneira tinha o olhar vago, como se pudesse ver o nada e soubesse o que nele continha. O padre afastou o rosto do vão e deu licença ao sargento, já impaciente com algumas de suas atitudes, assim o demonstrando sem o menor constrangimento. Bateu pesado na porta, gritando que um padre queria vê-la.Ela responde:- Deixe que entre!O rangido da porta se abrindo era assustador e alto, como se arranhasse o chão de pedra.Parado na porta sem saber o que fazer o padre lhe dirige a palavra:- Bom dia, Felipa! Eu posso entrar?Ele sabia toda a história da acusação dessa mulher, e admirou-se com o que viu: uma mulher de trinta e cinco anos que mais lhe parecia uma velha. Não por marcas da vida, mas pela falta de vida que havia em seu rosto. Não possuía sinal algum de esperança, nada lembrava que ali habitava uma alma.O padre trazia em suas mãos uma Bíblia, pois sabia que Felipa era letrada e sua intenção era lhe dar o livro. Ele não a salvaria do crime que lhe fora imputado, mas ela poderia conseguir, ao ler o livro, paz de espírito e arrependimento.Um carcereiro lhe trouxe uma cadeira, que ele arrastou para perto da mulher.Sem querer olhar diretamente para o padre, Felipa analisou aquela pessoa à sua frente. Apesar de vestido como todos os urubus que a visitavam, esse tinha alguma coisa diferente, não era velho como os outros e conseguia transmitir confiança, talvez pela aparência de inocência que trazia no rosto muito jovem. Mas se estava ali, com certeza era pelo mesmo motivo pelo qual todos estiveram, e perderia seu valioso tempo.Sem saber muito bem que atitude tomar, o padre falou a primeira bobagem que lhe veio à cabeça:- Estás pronta para falar?Ela ergueu suavemente a cabeça, cheia de desafio nos olhos, e disse:- És por acaso igual a esse velhacos que fazem interrogatórios?Pára, fixa os olhos nos dele, e continua:- Que esperas que eu lhe diga? Diz-me o senhor o motivo de estar eu aqui? Quem colocou-me cá atrás destas paredes? Será não há quem perceba que nada sei de minha estada aqui?Pedro captou o ódio daquela mulher, embora o tom de sua voz fosse da mais absoluta tristeza. Sentiu-se envaidecido por ela ter falado com ele, quantos tentaram antes e não conseguiram, muitos!! Muitos e mais experientes que ele, que saíra do seminário recentemente. Percebendo que a vaidade havia tomado seus pensamentos, culpa-se e pede perdão a Deus. Nervoso pela missão que a ele havia sido incumbida, espera que a conversa não acabe ali e procura estendê-la:- Filha, cá estou apenas para ouvi-te. Diga-me o que quiser. Não vou interrogar-te.Na verdade era isso mesmo que queria fazer, ser um inquisidor pelo menos uma vez na vida, mas não seria essa a sua função. Como gostaria de poder contribuir com a Santa Madre Igreja e o Papa!- Que queres de mim? Sabe por que cá estou? Era mais fácil que lesse os autos, porque eu mesma nada sei, não posso ser de grande ajuda. Vais me julgar e condenar-me na minha própria ignorância!! És igual a todos aqueles velhacos que escondem-se por detrás desta batina. “Urubu”!A voz de Felipa mal saía da sua garganta, era baixa e sem nenhuma emoção.Não poderia ser assim comparado. Não!!!! Não era isso o que faria, não a culparia sem ouvi-la!! Se a mulher quisesse falar, que falasse, da maneira que fosse, estava ali para ouvi-la. Diz:- Não estou cá para isso! Apenas ouvirte-te, para o que quiseres dizer. Converses comigo, apenas. Fales. Quem sabe não é isto que precisas?Estranhando a própria voz cheia de compreensão, olha para ela e espera alguma reação.A mulher se ajeita na palha seca, levanta os olhos marejados e vazios, como uma nau afundando.Ela lhe faz uma pergunta tola:- Vieste o senhor de Portugal? – dá de ombros e, como se falasse consigo mesma, resmunga – Quase todos que vivem cá de lá vieram.E continuou:- Vim-me ainda menina, de nove para dez anos. Lembro-me daquela viagem como se fosse hoje. Poderíamos nós falar sobre isto?Num aceno de cabeça, como que para não quebrar o encanto, o padre prepara-se para ouvi-la.- Minha história não é diferente da história das demais crianças que de lá vieram para cá. De Portugal lembro-me pouco, muito pouco. Mas de minha viagem para cá, jamais esqueceria! Vim com os meus pais. A minha mãe, coitadinha, estava apavorada por vir para esta terra de selvagens, o meu pai nem dava conta do que ela pensava, a decisão de mudarmos foi dele. Que Deus o tenha em bom lugar! Mas eu percebia como ela estava com medo.Parou de falar, lembrou-se da mãe - “provavelmente nunca mais a verei”.- Havia uma relação muito forte, assim o éramos por ela contar comigo e eu com ela. Ensinou-me a viver, a procurar a felicidade, embora não saiba disso. Chegamos cá em Janeiro, não me recordo quando saímos de lá. Aquela aventura ao mar foi uma grande diversão, afinal nunca havia saído da minha cidade.Quase falando para si mesma, continuou:- Não entendo como nunca visitamos parentes, mesmo os meus avós. Mas o passado a ele pertence, não questiono mais. Certo ou errado! – disse, em tom de conformação.- O capitão de nossa embarcação chamava-se Fernão Albuquerque, nunca esquecer-me-ei deste homem! Era admirável, e olhe que não digo isso só por mim. Todos o consideravam assim.Um pequeno sorriso escapa do seu rosto.- Eis um homem que nasceu para comandar, forte, muito altivo e enorme, muito alto mesmo... Talvez diga isso porque era pequena. Não, não, ele realmente era muito alto. Afeiçoei-me a este homem quase como a um pai, e ele a mim. Gostava da Felipa, e não da criança que era eu. Uma vez fiz-lhe uma pergunta que o fez dar uma gostosa gargalhada: – Por acaso com o sangue das tuas veias, corre água do mar? - Ele riu, riu muito, encantou-me vê-lo rir daquele jeito.Aconteciam coisas estranhas ali, a maioria das pessoas passava muito mal, vomitavam sem parar. Eu mesma não sentia nada, mas todos viviam enjoados, pendurados nas muradas. A mim era um sonho, mas para muitos foi um pesadelo. Conforto não tínhamos nenhum... nada... nenhum conforto. Dormíamos num único alojamento, todos misturados, homens, mulheres e crianças.O senhor tens idéia de como fede um alojamento daqueles depois de um mês? Um mês é muito! Poucos dias... pode imaginar? Nem queira! Fede, Padre, fede à urina, fezes, suor, é um fedor insuportável. Quanto mais tempo passava mais fedia. Muitas e muitas noites eu saía escondida e ia dormir no convés sem que ninguém me visse. Preferia isto a dormir com aquele cheiro horroroso.Era muito inocente, toda criança é. Só dei conta da distância que havia entre o meu pai e a minha mãe dentro daquele barco. Ela não queria lá estar, e nunca entendi porque meu pai, como tantos outros, não largou a família em Portugal e veio para a colônia sozinho. Até hoje pergunto-me qual foi a razão que ele teve para trazer-nos para o que a minha mãe chamava de fim de mundo, e que para mim hoje é o meu pesadelo! – E calou-se, passando a limpo a sua vinda a Salvador.O padre, inexperiente, não sabia se pedia que ela continuasse ou se permanecia em silêncio. Até para Deus apelou, até que, do nada, ouviu a voz de Felipa novamente:- Meu pai era um homem sonhador e veio atrás dos seus sonhos, apesar de todos os protestos. Não era de muito carinho, este era o seu feitio. Sabia que ele amava me, era isto que me importava. Foi um bom pai. Que Deus o tenha! Apesar de não ter sido um bom marido, mas isto era lá entre ele e a minha mãe, não era problema meu. Ao desembarcarmos cá, fomos até ao que parecia ser um alojamento para os recém-chegados esperar que orientassem-nos sobre o que fazer. Foi difícil dizer adeus ao Capitão, nos poucos meses que passamos juntos amei-o como a um pai. Sei que não foi difícil só para mim, sei muito bem disso...Olhou para o padre e disse:- Será que existe destino, padre? Tudo o que vivemos cá no mundo já está traçado por Deus? Porque o destino pregou-me boas peças, ruins também. Coisas que acontecem na vida às vezes formam um emaranhado que só Deus pode desatar. Eu sabia que veria o Capitão outra vez, era uma certeza que tinha no meu coração, e aconteceu mesmo. Muito tempo depois.E continuou, para satisfação do padre:- Adaptar-se aqui não foi problema, meu pai tinha consigo uma boa quantidade de dinheiro, lembro-me que por muito tempo comentou com a minha mãe que estava a economizar. Devia ganhar boas gorjetas – disse, encolhendo os ombros. – Depressa arranjamos uma casa, que era muito melhor que a de lá.E acrescenta em voz alta: – A vida lá não era fácil, não, nada fácil.Sorrindo timidamente, prosseguiu:- A primeira vez que saí a passear com a minha mãe aqui, apanhei um grande susto, não tinha reparado o quanto esta cidade se parecia com uma cidade portuguesa. Talvez pela pouca idade, achei que tivéssemos voltado para lá.Depois vim a saber que Salvador foi mesmo construída para ser um pequeno Portugal. As casas eram iguais às de lá, as ruas, assim como os prédios do governo. Tudo se parecia muito. Salvador é uma réplica de qualquer cidade lusitana. Acredito que até para matar a saudade do povo. A minha mãe divertiu-se muito com minha confusão.Contei-lhe da minha casa? Lembro-me de como era linda, a luz do sol entrava pelas janelas, pela primeira vez tive um quarto. Tudo nela era lindo!Acho que entendo meu pai, nossa vida lá era sofrida, meu pai vivia insatisfeito com tudo que fazia. Quando casou-se com minha mãe, trabalhava como ferreiro, lembro-me dele assim, enquanto criança. Depois de um tempo, acho que se cansou e veio a ser taberneiro. Que mudança, hem, padre? De bater em ferros foi servir bebida para os marinheiros. O seu sonho deve ter começado ali, de tanto conviver com aqueles homens que vinham do mar. O sonho de que iria construir alguma coisa de que gostasse num lugar novo, inexplorado.Admirada, diz:- Sabias que a primeira vez que vi um negro foi cá? Aliás, foi cá que vi quase tudo pela primeira vez . Índios... vi aos montes, e as frutas???? Com certeza já as comeu. Como são saborosas as frutas daqui! Os nomes são estranhos, mas o gosto... hummm... Faz tempo que não como fruta... – disse para si mesma.O seu estômago roncou e lembrou-se do sabor das mais variadas frutas.- Pitanga, jenipapo, carambola, cupuaçu, manga... ah, manga! Gosto muitíssimo de manga, acho bom de comer, mas não se pode comer na frente de ninguém, lambuzo-me toda, e não sobra nada, não, chego a chupar até o caroço!O padre não estava preparado para a sensualidade com a qual ela descreveu a degustação da fruta. Inquieto, remexeu-se na cadeira como tentando disfarçar o impacto causado pela simples imagem da mulher comendo manga.Felipa continuou falando como se precisasse expurgar o passado para poder esquecer o presente.- Não lembro-me do gosto das frutas em Portugal, mas tenho certeza de que as de cá não se comparam às de lá. São muito melhores, têm sabor, substância.Como se lembrasse que ele estava a ouvir, pergunta:- Estás há muito tempo cá? Já provastes caju? Aqueles enormes, amarelos, que sabor!! Às coisas boas acostumamo-nos depressa.Continuou:- Meu pai pôde abrir uma loja que vendia ferragens, já que ele entendia do assunto, e era negócio próprio. A minha mãe não mudou quase em nada o que fazia, cuidava da casa e de mim. Ela costura bem, ou costurava, não sei se hoje ainda o faz, mas nunca como ofício. Ensinou-me, aprendi, fiquei melhor do que ela. Fui a melhor costureira de Salvador! Acho que ainda sou!Viajava por onde a sua memória a levava.- Lembro-me da minha infância, sem muitas crianças para brincar. Mas eu já não era tão criança assim. Aparecia sempre lá em casa uma negrinha, a mãe trabalhava na mesma rua, não muito longe, para uma velha, ô velha chata! Eu nunca havia entendido, naquela idade, por que não se podia misturar a cor das pessoas. Brancos são brancos, negros... Bem, negros não são nada, muitos diziam que não eram nem gente, que não possuíam inteligência ou alma.Pergunta:- Isto lá é verdade? Não acredito que Deus não lhes tenha dado alma, são tão gente quanto eu, carne, osso, sangue, tudo igual, não muda nada. Não acredito nesta história, e o senhor pode até dizer me que é verdade, mas não vou acreditar!O padre agradeceu a Deus por ela ter esquecido a pergunta.- Mentira, padre, tudo mentira. A minha amiga, o nome dela é Quitéria, era tão inteligente quanto eu. O senhor sabes que eu tive conhecimento das letras, ela também teve, não sei como, com aquela velha chata dona delas. Quando crescemos um pouquinho mais, idade de menina moça, não deixaram-me voltar a vê-la. Nunca entendi! Lembro-me de uma tarde em que estávamos a brincar na rua, e a velha veio com uma cara furiosa atrás da minha amiga... Tem certas coisas que ficam marcadas na cabeça da gente e parece que nem lavando saem. A velha chegou e bateu na cara da Quitéria!! Padre, aquilo revoltou-me, eu queria bater na mulher quando vi o sangue a escorrer da boca da pobrezinha. E bateu-lhe só porque estava à procura da menina e não a achava. Nós morávamos na mesma rua, e nem à porta a mulher apareceu. Certas coisas revoltam-me!!!Nesse momento, ouviram o carcereiro gritar que a hora tinha acabado. O padre levanta-se, deixa a Bíblia perto dela, e diz:- Minha filha, sei que não és analfabeta, como me disses, por isso trouxe-lhe a Palavra de Deus para que possas ler se assim o desejar. Com toda certeza irá fazer-lhe bem.Sem olhar para o livro, Felipa observou o padre sair e voltou a deitar-se, procurando que algo nos seus pensamentos pudesse dar-lhe descanso. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-1389022677465960501?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/1389022677465960501/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=1389022677465960501' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/1389022677465960501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/1389022677465960501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-i_20.html' title='CAPÍTULO I'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-7934972202528607773</id><published>2007-09-20T05:32:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:32:54.780-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte acordou com o corpo dolorido, lembrando-se da conversa com o padre, esperando que ele viesse outra vez.No horário mais ou menos esperado ele chegou. Percebeu a receptividade de Felipa e sentiu-se feliz, embora ela tentasse manter-se afastada.Aparentando estar preocupada, ela pergunta:- O senhor não cansas-te de me ouvir?Arrastando a cadeira, que mais uma vez o carcereiro lhe trouxe, e meneando a cabeça rapidamente, ele responde:- Não, minha filha, de maneira alguma, estou aqui para isto mesmo, queres continuar?- É muito estranho o senhor chamar-me de minha filha, tão mais moço do que eu. Tenho muito o que falar mesmo, falar do passado faz com que eu me sinta viva, e o que eu mais preciso neste momento é sentir que ainda vivo, mesmo que seja do passado, e mesmo que não saiba até quando. Aonde eu ia? Na Quitéria!!! Pois bem, mesmo que não pudéssemos ver-nos um dia, mais tarde encontramo-nos. Ela não sumiu da minha vida. Sabes que eu agradeço por ter aprendido a costurar com a minha mãe antes de casar, e tão cedo! Se fosse mais tarde...A curiosidade sobre o que ela falava levou o padre a perguntar:- O que houve minha filha, a tua mãe faleceu tão jovem?Com um leve sorriso, ela respondeu:- Não morreu, padre – e interrompeu, num clima de suspense – fugiu com o Capitão Albuquerque.Lembrando do fato, esqueceu-se de que o padre a ouvia atento.Agindo como uma boa fofoqueira, os olhos mais abertos do que o normal, ele abaixa-se um pouco e pergunta:- Como é ? Fugiu? Como assim, fugiu?Felipa não consegue conter o riso, coisa que não fazia muito ultimamente, e desata numa gargalhada.Só então o padre se dá conta do papel que havia feito. Pede mil desculpas, diz que jamais havia feito aquilo na vida, tece uma ladainha das suas virtudes e cala-se.Ainda sorrindo, Felipa continua a contar:- Lembra-se que eu disse que a minha relação com o Capitão era muito parecida com a de uma filha? Pois a da minha mãe era bem outra. Ela apaixonou-se por ele na vinda para cá. Mas só fugiram depois que eu me casei. O meu pai não era um bom marido, vivia largando a minha mãe e passando a noite toda na companhia de mulheres soltas na vida. Eu ouvia a minha mãe a chorar sozinha no quarto, ela sofreu muito com isso. E foram anos e anos. Assim que eu me casei, ela fugiu.Fita o padre e pergunta:- Queres saber sobre meu casamento e a fuga da minha mãe?Muito discretamente, ele diz que sim.- Como quase todas as meninas, casei-me muito cedo, aos dezesseis anos. O meu pai arranjou o meu casamento, o meu noivo era muito mais velho do que eu, uns vinte anos, acho eu. O meu pai dizia sem parar que eu tinha que ajudar a povoar a colônia. Povoar!!! Queria que eu tivesse dez filhos, dizia. Dez!!! Não tive nenhum, padre, nenhum!Completamente descontrolada Felipa desatou a chorar. Agarrou-se às próprias pernas, as lágrimas correndo pelo seu rosto como um veio d’água que estivesse lavando a alma, as feridas de toda uma vida.Ficam em silêncio por algum tempo.Passada a crise, enxugou o rosto com o lenço que o padre lhe estendia e continuou:- Falava de minha mãe... Durante todo este tempo ela nunca esqueceu o Capitão. Às vezes eu via que ela olhava longe, o mar para ela era um refúgio, os seus olhos fitavam as ondas como se elas fossem trazer-lhe alguma coisa, mas eu não sabia o que era. Em certos dias, quase que marcados, a minha mãe saía sem dizer aonde ia, e eu perguntava-me – onde será que ela vai? – A minha curiosidade sempre foi muito grande, num destes dias não me agüentei, segui a minha mãe. Ela arrumou-se toda, nunca tinha reparado como ela era bonita, disse que ia sair, fui atrás dela. Eu ainda não tinha dezesseis anos nessa época. Fui seguindo para ver aonde ela ia, não parou em lugar nenhum, ia andando em direção ao cais. De repente estancou em cima de uma pedra, morro, sei lá o nome daquilo, e ficou a olhar o mar. Naquele momento não entendi nada, pensei: deve ser saudades de Portugal.Um brilho nos olhos de Felipa traduzia a emoção que sentia ao falar:- Mal sabia eu o que o mar trazia para ela. Os seus olhos tinham um brilho diferente, brilho que eu nunca tinha visto igual. Era felicidade, padre, pura felicidade, vi pela primeira vez a minha mãe feliz, era real, já não eram aqueles olhos tristes do dia-a-dia, eram olhos de pura poesia. Estava imersa no olhar da minha mãe quando a vi abrir um lindo sorriso. Mas eu não via nada, ela estava sorrindo e olhando para baixo. De repente, quem eu vejo subindo de encontro à minha mãe? Pois é, eu soube naquele instante, pelo tamanho do homem, que era o Capitão. A princípio tenho que confessar que fiquei chateada, afinal era de mim que ele gostava. Como filha, mas gostava. Não estava preparada para ver o que vi, eles abraçaram-se e o homem ali na minha frente beijou a minha mãe. Não que eles soubessem que eu estava lá, mas eu sabia, eu estava vendo. Os dois deram as mãos e foram andando, afastando-se da pedra, eu atrás. Vi quando pararam à frente do alojamento do Capitão. Eu não sabia o que fazer, não sabia se chamava o meu pai, se ia lá e mostrava-me para os dois, o fato é que virei às costas e disse para mim mesma: que sejam felizes, afinal o meu pai não a faz sorrir, nunca se importou com a felicidade da mulher dele. Vivia em bordéis com rameiras de rua, não seria eu que iria tirar a única coisa na vida que a fazia feliz. Na época, eu não sabia bem o que era aquilo que vi nos olhos dos dois. Hoje eu sei, padre, era amor, amor de verdade.Lembrou-se de quantas vezes olhou a mãe sem entendê-la, antes de saber do Capitão.- Como eu dizia, casei-me muito cedo. Durante a viagem para cá, o meu pai fez amizade com um dos que, como nós, estava vindo para o Brasil. Lembro-me que não tinha trazido a família com ele, dizendo que assim que se instalasse mandaria buscá-los. O nome do homem que viria a ser meu sogro era Jacinto. Realmente, depois que se acertou aqui mandou buscar a mulher, D. Inocência, e seus dois filhos, Ambrósio e Francisco. Este último, mais tarde seria o meu marido.Na idade de me casar, o meu pai e seu Jacinto fizeram os acertos para que eu e Francisco ficássemos noivos. Lembro-me perfeitamente desse dia! Eu estava linda, padre, a minha mãe ajudou-me a vestir, mas quem havia costurado o vestido era eu. Era lindo, cor-de-rosa. Eu havia tentado ver de perto o homem que seria meu marido, mas não conseguia, o senhor sabe que mulher não anda sozinha para não ficar com má fama. Precisei esperar para conhecê-lo só no dia do noivado.Quando entrei na sala estavam sentadas as duas famílias, a minha e a dele. Eu não sabia o que fazer, não sabia como era a cara dele. Fiquei ali parada, empacada igual a uma mula, com um sorriso pregado na cara. Acho que não mudaria de lugar nem que alguém me chacoalhasse. Até a Deus eu pedi uma ajudinha, queria que Ele me dissesse: É aquele ali, minha filha. Mas que nada. O meu pai veio na minha direção, segurou a minha mão, colocando-me diante do Francisco, disse: - Minha filha, este é o seu futuro esposo, Francisco. - Pense bem, padre, eu, com dezesseis anos, a olhar aquele homem feito parado na minha frente, muito mais velho do que eu! Olhando para mim como se estivesse apaixonado, daí virou-se para o meu pai e disse: - Seu Manuel o senhor concede-me a mão da sua filha para matrimonio? - Eu não sabia sequer o que era conceder. Rapidamente o meu pai respondeu: - Claro que sim. - Será que ele tinha medo que eu fugisse?Olhando para a sua mão, Felipa observou a marca do anel.- O meu noivo tirou um anel de dentro de uma caixinha, dizendo ter sido da avó, e entregou-me. Marcamos a data do casamento para dali a dois meses.O casamento foi bonito como o meu noivado, só que com muito mais gente. O meu vestido era uma beleza. Eu até gostava do Francisco, ele era bom para mim. Acabada a festa, fomos para a casa que seria nossa, ficava ao lado da padaria, eu contei-lhe que ele era padeiro? Pois era, e dos bons. A minha primeira noite foi como as demais que tive com ele, eu não podia tirar a roupa porque era feio, ele tinha que ajeitar-se em cima de mim com aquele camisolão, eu vestida até ao pescoço. Isto é muito estranho, padre, não consigo entender, podia-se usar menos roupa nessas horas.A reação do padre foi de espanto, já que a maioria das mulheres concordava com aquela atitude de pudor.- Uma semana depois de casada, a minha mãe foi embora sem deixar endereço, nem para mim, nem a ninguém. Eu entendi padre, sabia que o que eles sentiam era amor, amor real não pode ser errado. O meu pai sentiu falta dela só nos primeiros dias, tenho a impressão de que muito mais por não ter agora a mulher que lhe arrumava as coisas - não sentia falta da mulher com quem casou. Acho que esta terra virou para baixo a cabeça do meu pai. Não acho que a minha mãe e o Capitão fizeram algo errado, foram ser felizes, é o que Deus quer, não é?O padre tinha que lhe dizer o que constava na palavra de Deus:- Não é bem assim, Felipa, a sua mãe era uma senhora casada, tinha que respeitar os laços do sagrado matrimônio.Ela retrucou:- E o meu pai, não tinha? Por que é que ele podia fazer o que queria, sair com prostitutas, manter casa para gajas, e a minha mãe não podia ir embora com o homem que amava?O padre continuou:- Quando as pessoas casam-se fazem votos de fidelidade, e devem respeitar-se um ao outro, a mulher deve obediência ao marido. Sei que o seu pai cometeu os erros dele, não o estou a desculpar, mas a sua mãe deveria ter-se mantido fiel ao lado dele. Certos homens têm essa necessidade de procurar coisas fora do casamento, mas isso não significava que não amasse a sua mãe. Pelo contrário, a sua mãe é que amava outro homem, o amor divino é aquele que se tem no casamento.A reposta de Felipa foi dura:- Então quer dizer que, fossem quantas fossem as mulheres com quem o meu pai andasse, a minha mãe deveria ter suportado calada? Padre, nem nome de santa a minha mãe tem, já viu alguma Santa Fulana? Porque esse era o nome dela. A minha mãe é de carne e osso e tem um coração. O senhor, para ser padre, negou a carne, e não entende o que é amar alguém acima de tudo, enfrentando barreiras e preconceitos. O senhor deve saber por que é que eu estou aqui, embora eu só possa supor esse porquê. Jamais condenaria a minha mãe a estar na mesma situação que a minha por um erro do tempo, o homem certo na hora errada. Bem fez ela que foi embora daqui, senão seria bem provável que estivéssemos dividindo a mesma cela.Diante da resposta inflamada, o padre preferiu se calar. Não passaria mais sermão nenhum sobre fidelidade, pois sua conversa com a mulher poderia terminar ali. Porém lhe disse:- Muito bem, vamos continuar a nossa conversa sem nos ater a opiniões, pelo menos às minhas, mas há de prometer-me que isso ficará entre nós.Surpresa, ela perguntou:- A quem é que eu poderia dizer algo contra o senhor?A resposta fez com que se lembrasse de onde estava e o que, em breve, aconteceria:- Aos inquisidores, nos interrogatórios.Felipa entristeceu. Escutaram os ferrolhos da porta que se abria e despediram-se na promessa da volta do padre no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-7934972202528607773?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/7934972202528607773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=7934972202528607773' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7934972202528607773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7934972202528607773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-ii_20.html' title='CAPÍTULO II'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-8763947390739162574</id><published>2007-09-20T05:30:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:31:46.091-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No pequeno catre onde estava, a figura de Felipa quase desaparecia, era impossível se acomodar, ficava encolhida em posição fetal. Desse jeito, sentia-se protegida. Lembrava-se dos tantos lugares em que havia visto negros passarem quase que a vida inteira. Locais iguais ou piores que o de seu confinamento.Pensamentos... procurava não tê-los!!!Olhava a seu redor, via a sujeira, os insetos e roedores passeando como se fosse ela a intrusa; não havia nada naquele lugar, nem um simples colchão, dormia encolhida no chão frio coberto de palha seca e agradecia o calor que castigava Salvador nessa época do ano.Suas lembranças eram de momentos soltos, largados, do que havia sido sua vida até o momento de sua prisão.As horas passavam, para ela o tempo não tinha mais importância alguma. Conjeturava: “O que faria se o tempo parasse?” Com dores pelo corpo todo, fazia uma análise distorcida do que lhe vinha à mente.“O tempo!!! O que é o tempo para quem nada tem? Eu vivo de um passado sem futuro, presente não possuo, o ontem já é hoje, tempo!!! Tempo!!! Quanto tempo se passou desde que os homens me destituíram da condição de ser humano? Tempo!!! Jogo de sorte ou azar, vício da vida, sem ti nada seríamos ou faríamos, isto é o que tu és, tempo, todos vivemos escravizados à espera do que pode acontecer enquanto ainda há tempo!!!”.Seus devaneios lhe faziam falar com o nada à espera de uma resposta, talvez questionasse sem motivo algum, como uma alma enlouquecendo com medo do que estava por vir.“Quanto tempo será que me resta? Por que é que ninguém me diz nada e me deixam aqui sem saber o meu fim? O que querem de mim? Enlouquecer-me, só pode ser isso. Só pode ser!”.O sono não chegava, o desconforto fez com que voltasse ao passado, à sua viagem para o Brasil.Comparou o lugar onde agora tentava dormir com o alojamento da caravela. As sensações eram similares, mas os motivos tão diferentes! Um a levava à vida e o outro, provavelmente, à morte.Lembrou-se da primeira vez em que viu a morte de perto naquela embarcação. Os mais fracos que não conseguiram completar a viagem por terem adoecido sem ter como se curarem, sendo levados ao destino que os aguardava, a morte. No Santa Helena foram quatro, e vários outros nas outras naus.Com um arrepio percorrendo o corpo, via nitidamente as cenas dos homens enrolados em tecidos sendo jogados ao mar. Queria esquecer a imagem que lhe vinha à cabeça nesse instante. Fechou os olhos o mais forte que pôde tentando apagar essa marca tão viva que lhe parecia muito mais forte agora.“Tudo que tem vida morre, pessoas, animais, plantas, mas a morte que mais dói é aquela dos sonhos que não chegamos a ver nascer. Meu filho!!! Sonhei tanto com a tua vida, queria ter-te visto nascer, amamentar-te, ver-te crescer, sentir-me mãe, mas nunca vieste ao mundo, foste um sonho morto como o meu sonho de ser mãe. Todos mortos, sonhos mortos, as piores mortes a enfrentar!!!”Pensou em Francisco, na sua simplicidade, teve pena, ele estava velho para enfrentar aquilo, afinal quem estava em idade de sofrer todo esse infortúnio?De repente sua memória retorna, pouco mais, pouco menos, há dez anos atrás.Estava em sua casa, como de costume costurando, quando viu entrar pela porta uma mulher distinta, séria, de poucas palavras, nunca a tinha visto pela cidade. Era realmente diferente, cabelos negros bem penteados amarrados na nuca, a roupa impecável, um andar de pessoa muito educada, com certeza era estudada, nada tinha das portuguesas que moravam por ali.A senhora pediu licença, entrou, perguntou se podia esperar, Felipa concordou imediatamente, ofereceu-lhe assento e atendeu a mulher que certamente poderia ser chamada de dama.A bela senhora se apresentou:- Bom dia, chamo-me Catarina Fernandes!Felipa jamais esqueceria esse nome, bem como a mulher.Tentava lembrar-se da data em que conheceu Catarina, não podia ter-se esquecido, forçou a memória, finalmente lembrou o ano, 1583. Fazia tempo...A mulher perguntou se poderia lhe confeccionar um vestido. E que se aprovasse o corte faria mais alguns, porém a confecção teria que ser rápida, no máximo em um mês.Felipa, cheia de curiosidade, perguntou-lhe:- Não que seja do meu interesse, mas por quê a pressa?Catarina contou-lhe que era casada com um comerciante de pedras preciosas, eram do Recife e que estavam indo embora do Brasil dentro de dois meses. Moravam aqui há quase dez anos, tinham uma situação financeira muito boa, e por isso podiam dar-se ao luxo de fazer essa viagem.Muito confusa Felipa não entendia nada, e na sua simplicidade voltou a perguntar:- Por quê sair desta terra? Não está sendo generosa com vocês? Pelo que me disses, vivem muito bem.A resposta foi como um soco no estômago. Catarina olhou dentro dos olhos da moça e disse:- Somos judeus!Felipa assentiu com a cabeça e procurou não demonstrar nenhuma reação. Lembrou-se dos sermões que os padres faziam, de como acusavam aquele povo de hereges. As piadas contadas nas ruas, o preconceito. Como outros, tinha aprendido a manter-se afastada dos judeus, que o padre dizia serem um povo pagão e demoníaco.Olhava aquela mulher e procurava a maldade que todos falavam... Algo como piedade lhe tocou o coração, gostaria de poder ajudar aquela senhora.Colocou-se à disposição de dona Catarina Fernandes, sem parar para pensar. E se indagava:“Sair daqui para onde? Não seriam sempre perseguidos? Que importava o lugar que fossem?”.E Catarina continuou a explicar a situação para a moça:- Vamos embora do Brasil! Com os inquisidores cá, já não há nenhum lugar seguro.Percebendo que nada mais tiraria da mulher a não ser as medidas, começou o seu trabalho, conferiu a metragem do tecido, escolheram o modelo. Disse-lhe que estaria pronto para a prova dentro de uma semana, e que ela poderia escolher o horário que lhe fosse mais conveniente.Tudo acertado, a mulher despediu-se, agradeceu e desapareceu pela porta.Por conta da maldade alheia, pensou em manter a identidade de Catarina em segredo, afinal era apenas mais uma mulher, como tantas que entravam em sua casa em busca de seu serviço.Uma semana depois, no horário combinado, Catarina entra no quarto de costura de Felipa para a primeira prova do vestido. Ficou perfeito. A senhora mostrou-se muito satisfeita com sua habilidade na arte da confecção. Perguntou a moça se teria condições e tempo para assumir mais quatro peças e lhe entregar no prazo de um mês.Com o desejo firme de poder ajudá-la aceitou sem objeção alguma, mesmo que atrasasse os compromissos já assumidos, inventaria uma desculpa. Naquele dia pouco falaram, apesar das indiretas da costureira.Terminada a prova e os acertos finais, passaram a tratar da confecção dos demais. Tudo combinado, ela voltaria em uma semana para experimentá-los.Curiosa, passou a fazer perguntas a respeito desse povo perseguido para as pessoas em quem confiava, mas todos eram unânimes em afirmar que eram pagãos e deveriam queimar na fogueira da Santa Inquisição.No dia combinado, Catarina apareceu para finalizar o tratado. Sentia o interesse da moça a respeito de sua vida. Depois de tudo feito, a mulher lhe disse:- Sente-se, vamos conversar um pouco.A moça simples, de reações transparentes, arregalou os olhos, mal agüentando a espera do que iria lhe ser dito.- O meu povo veio para cá mais ou menos no ano de 1530. A vida na Europa estava um verdadeiro inferno, conforme deves saber, devido à perseguição que sofremos pelos simpatizantes da Inquisição. Portugal até não nos perseguia tanto e abriu-nos uma porta, um caminho diferente para os que quisessem sair da Europa e procurar vida nova em novas terras. Isso foi como olhar a vida novamente com as esperanças que já não tínhamos nos nossos corações. Desde que aqui chegamos trataram-nos muito bem, pudemos exercer a nossa prática religiosa sem nenhum problema. Construímos duas sinagogas no Recife. Viemos em grande número. Trabalhamos com afinco, fizemos fortuna, vivíamos tranqüilos. Agora os tempos são outros, o nosso dinheiro, conquistado à custa de muito esforço, interessa aos cofres portugueses. Já está a fechar todas as saídas para o meu povo poder sair daqui, querem estabelecer uma Inquisição como na Europa. O medo voltou a assolar-nos, muitos já se foram, é uma viagem complicada, na realidade é uma fuga. Mas, Felipa, peço-te para nada contares sobre isso ou sobre mim, nem ao teu marido.Felipa, de volta à realidade de sua cela, lembrou que a fuga de Catarina tinha lhe dado o primeiro sentimento de revolta contra a Igreja e a tal da Santa Inquisição.Hoje se recordava dessa passagem com uma certa inveja.“... ela, pelo menos, conseguiu fugir das mãos destes carrascos”.Voltando ao passado, perguntou à mulher:- Para onde vão desta vez? Há algum lugar seguro? – e esperava a resposta com uma certa agonia.- Felizmente há, mas, por favor, insisto, não comentes nada com absolutamente ninguém.- Nada irei dizer D. Catarina, podes ficar tranqüila - respondeu.- Já ouviste falar na América do Norte, a de Colombo? – a moça afirmou com a cabeça. – É para lá que iremos, a maioria da população é de cristão-novos e a nossa presença não os incomoda, eles também sofrem a mesma perseguição, a nossa intenção é fixar moradia numa cidade de nome Nova Holanda. Acredito que será muito melhor para nós mantermo-nos afastados dos católicos. Sinto que mais uma vez se está repetindo o caminho dado por Deus a Moisés, vamos no maior número que pudermos. Será mais um êxodo nosso.Ao final do desabafo da mulher, Felipa estava com lágrima nos olhos, pensando em como se podia tratar um povo assim.No dia da despedida, Catarina prometeu mandar notícias e trocaram um longo abraço, como que sabendo que jamais se veriam novamente.Soube depois que muitos judeus haviam sido perseguidos e condenados por aquela intolerância, bem comum aos que comungavam a fé católica.Queria muito saber como ela estava. Durante um tempo trocaram correspondências, mas a pedido da amiga pararam, pois Catarina sentia medo, mesmo não estando mais no Brasil.Pensando na sorte de Catarina Fernandes, conseguiu adormecer. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-8763947390739162574?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/8763947390739162574/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=8763947390739162574' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/8763947390739162574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/8763947390739162574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/no-pequeno-catre-onde-estava-figura-de.html' title='CAPÍTULO III'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-6058700712664250238</id><published>2007-09-20T05:29:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:29:49.610-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO IV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte mal tinha vontade de abrir os olhos, muito menos de mudar a posição em que passara a noite. Lembrou-se do padre, que nem cara de homem tinha, mais parecia um menino, e um sorriso escapou de seus lábios. Confiava naquele moço, talvez porque sentisse que fosse o filho que Deus nunca lhe dera, com ele as palavras saiam fácil de sua boca.Com certeza era uma pessoa estudada. Pensou no quanto tinha sido difícil convencer a mãe para que a deixasse aprender um pouco das letras. Sabia que era uma mulher de maneiras simples, afinal não fora educada para ser uma dama, era uma mulher como outra qualquer de sua classe social.Altiva, pensou: “... podia ser simples, mas possuía dignidade e foi atrás dos seus sonhos. Infelizmente, no seu coração sabia que o seu próprio sonho a havia colocado ali”.O carcereiro abriu a portinhola da cela e passou-lhe um pedaço de pão e uma caneca d’água. Lembrou-se da viagem mais uma vez, dos dias em que quase nada tinham para comer, mas haviam sobrevivido. Não seria pela falta de comida que lhe tirariam a vida.Percebeu que não estava mais se sentindo como nos últimos dias, a visita do padre lhe fizera bem. Sentiu avolumar em seu peito uma revolta contra aqueles hipócritas todos vestidos com riqueza, achando que podiam fazer o papel de Deus na terra.Tinha que externar sua raiva, pelo motivo que achava que ali estava. Como se achavam no direito julgá-la? Como? Aqueles homens nunca haviam amado!!!Falou todos os palavrões que conhecia em voz alta:“Hipócritas!!! Filhos da puta, cornudos, fodidos, embusteiros, quem lhes deu o direito de saber o que é de Deus e o que não é. Interesseiros, devem ser todos efeminados e nunca devem ter conhecido o amor de uma mulher, ou se o conheceram e a negaram, são tão impuros como os que estão cá comigo. Por que não se jogam por livre e espontânea vontade no fogo??!!!”Depois da gritaria sentiu-se vingada, ninguém podia fazer-lhe mais mal do que já estavam fazendo, podia falar o que quisesse, conhecia seu final, e se quisesse mandá-los à merda de hoje em diante, mandaria! Sabia que quem cruzava a porta daquela prisão não seria inocentado nunca!“Será que o padre iria visitá-la hoje?”.Nada tirava da sua cabeça que ele era o filho mandado por Deus, para que pudesse estar com ele nesses dias que estavam por vir. Não iria dizer nada ao moço, ele com certeza iria pensar que, além do motivo por que estava sendo acusada, devia estar mesmo possuída por algum demônio ou já estava ficando louca.Lembrou-se de Quitéria e começou a divagar, como se estivesse falando com ela:-Engraçado, eu aqui neste lugarzinho, presa como um bicho. Quantas vezes vi negros em pior situação que eu?Lembras-te daquela surra na minha frente? Senti um ódio, o que aquela velha louca pensava, nem tua mãe ela era para te dar tamanho corretivo, só porque não ouviste ela chamar!!! Acho que foi uma das últimas vezes em que brincamos juntas.Aquela mulher, sim, deveria estar aqui para pagar os pecados da forma como a ti tratava e à tua mãe. Bom, se todos os que fizeram isso com os negros estivessem aqui, teriam que construir Salvador de novo, e com um nome diferente. Aqui não se salva um!Uma vez fui com Francisco visitar um cliente que morava num engenho, daqueles enormes. O homem era dono de um monte de terra, a plantação de cana perdia-se de vista, tinha mais de mil escravos, eu bem que dei graças a Deus por tu e a tua mãe não terem ido parar num lugar daqueles.Quase podia ver a moça ao seu lado enquanto falava.- Entramos no tal pátio perto da casa onde o homem morava com a família, toda a gente empoadinha, parecia até que era dia de missa, eu não estava a prestar atenção àquela coisa enorme que era o pátio não, olhava era para a casa. De repente virei-me ao pátio, e o que eu vi embrulhou-me o estômago, cheguei a vomitar, sabias? Tinha um monte de negros amarrados nuns postes sangrando, acorrentados, e um homem da mesma cor deles, negro, menina, que mandava o chicote nas costas dos pobres coitados.Eu fiquei muito assustada, peguei no braço do Francisco e perguntei-lhe o que era aquilo... Tu podes imaginar o que o babão me respondeu?E imitando a voz do marido, continuou.- Isso é o ensinamento que eles ganham quando tentam fugir daqui, afinal o que é que essa negrada quer? Trabalham, ganham comida e casa de graça, deviam era levantar as mãos para o céu e agradecer pelo que recebem.Não me agüentei. Não! Não mesmo!!!Parou e fez uma pergunta para o nada, ou para a mulher que julgava ver a sua frente.- Tu conheceste o meu marido, era bom, mas o homem não entendia nada de mulheres, deves-te lembrar. Voltando onde eu tinha parado, segurei no braço dele e disse: vai lá, fica no lugar deles, e depois diz-me se isso é ensinamento!Tu conheces-me, menina, sabes que não sou de segurar as palavras que me vêm à boca. E olha que o homem olhou feio para mim, mas eu nunca tive medo dele, dei de ombros.E continuou o seu monólogo, como se alguém ouvisse:- Sabes por que eu acho que não consigo esquecer essas coisas que eu vi? Porque eu estou aqui, e sei que quem vai passar por coisa igual ou pior sou eu, já ouvi um monte de histórias da gente que foi presa por esse tal tribunal, eu tenho a certeza que vou estar na mesma situação que aqueles negros estiveram naquele dia.Com medo do futuro queria que o tempo parasse, mesmo que a deixasse presa ali.- Lembro-me quando anunciaram que iriam aplicar um corretivo num negro fujão, famoso, desses que fugiam para ajudar outros a fugir, diziam até que tinha construído uma caverna e escondia outros negros lá dentro, mas que branco nenhum sabia aonde era a bendita. Não me lembro o nome que eles deram a estes esconderijos, eu não sei o que fui lá fazer, nunca me tinha interessado em ver essas coisas, provavelmente estava a comprar alguma coisa no comércio.Mas neste dia eu parei para ver, céus, como aquele negro apanhou, e o povo gritava - isso mesmo, bate mais, que essa raça de miseráveis merece é isso!Credo lembrei-me até da Bíblia. É, da Bíblia!!! Tu lembras-te das histórias daqueles homens que acreditavam em Jesus e eram atirados a um poço cheio de leões para serem comidos vivos? E toda a gente que estava ali torcendo contra o negro cristão!!! Como a memória é fraca quando convém!!!E como chegavam navios trazendo cada vez mais negros para cá!!!Sabes uma coisa, eu nunca entendi, devia ter mais negros do que brancos cá, explica-me aí, tu que és da raça, por que nunca acabaram com os brancos e tomaram conta desta terra, quer dizer, não precisavam matar todos, podia sobrar gente branca que fosse boa, porque tinha... Uns até ajudavam os escravos a fugir, estes não precisavam morrer, mas esta cambada, esta mesma que me colocou aqui, estes deviam morrer todos!!!Impacientava-se. Olhava para a porta, tentava ouvir algum outro barulho que não fosse de gritos desesperados, e nada do padre.Bateu na porta como se pudesse ser ouvida do outro lado e gritou:- Ei, gajo!!! Gajoo!!!!!!! Aonde estas, carcereiro????? - Pensou: “Se eu começar a insultar ele vai aparecer, nem que seja para me dar umas bofetadas e insultar-me mais do que eu o insultei a ele. O melhor é mesmo eu calar a boca! ”Já que o padre não vinha, continuou a falar com a moça da sua imaginação:- Tu eras tão linda, Quitéria, alta, magrinha, tinhas umas pernas bem feitas, os peitos empinadinhos, e a nádegas... que nádegas!!! Eu lembro-me bem porque nós nadávamos nuas naquele ribeirinho perto daquele convento, eu nunca pensei nisto, mas imagina se as freiras nos tivessem visto as duas lá, que surra iríamos levar.Riu de novo, mas na mesma hora os seus olhos tornaram-se tristes, tapou-os com as mãos como que para apagar a imagem que lhe veio à cabeça.Falava desenfreadamente, coisas sem sentido, o que lhe vinha à mente, parecia que estava se afogando em lembranças. O seu humor alternava da apatia à euforia.- Sabias que o Francisco uma vez comprou um negro? É!!!! Foi lá no cais, no mercado onde vendiam o seu povo. Um dia chegou a casa com um deles. Eu quase caí no chão, não entendia o que ele podia querer com um escravo, a escrava lá era eu.Riu mais uma vez.- Quem trabalhava e sabia muito bem fazer o serviço de casa era eu, e nunca reclamei nada, era o serviço da mulher. Quase tive uma zanga com o homem por causa disso, mais aí ele veio com aquela conversa mole de que precisava de mais alguém na padaria, e contratar um branco ia sair muito caro, estas coisas, o negrinho nunca fez nada de mal não, era até muito educadinho.Numa conversa nossa - é, menina, a gente conversava muito quando ninguém estava por perto - ele contou-me que era príncipe lá da terra de onde ele veio. Príncipe!!! Num acreditei nisso não, acho que foi só para me impressionar, tu já pensaste ter um príncipe a trabalhar em casa, mesmo escravo? Se ainda fosse uma daquelas ricaças, mas eu, Felipa, uma costureira? Até que podia ter sido bom para os negócios do Francisco, era só espalhar que o negro era príncipe e servia na padaria, já imaginaste a curiosidade do povo???Explica-me, como é que pode existir um príncipe negro, mulher?Nunca falei nada disto com ninguém, já pensaste o que ririam da minha cara?O dia foi passando e nada do padre aparecer, dirigiu-se novamente para a pesada porta e começou a gritar de novo:- Gajo!!!!! Boçal! Ei, filho de uma puta!!! Ô gajo, onde está o padre???? Gajooo!!!!! Merda!!!!!!! Será este filho de uma puta é surdo?Lembras-te quem me ensinou a dizer insultos? Lembras? Foste tu, acho que de ouvir a velha...E desatou a rir novamente.- Tinha uns que nem repetir eu repito, acho que já nem me lembro, quem sabe se fizer uma forcinha até me vêm à cabeça de novo, mas tu sabes, se começar a falar estas coisas, além do que já sou acusada, vão-me chamar doida.Aquele dia se foi e o padre não veio. Felipa entristeceu-se, gostava do moço. Mas a conversa com Quitéria tinha sido boa.Acabou por adormecer em meio às lembranças da negrinha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-6058700712664250238?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/6058700712664250238/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=6058700712664250238' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6058700712664250238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6058700712664250238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-iv.html' title='CAPÍTULO IV'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-982655835667049985</id><published>2007-09-20T05:28:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:28:46.788-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO V</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quanto tempo será que estava ali trancafiada? Pouco importava, ainda estava viva, e enquanto estivesse ali, continuaria viva!!!Levantou-se do chão, espreguiçou o corpo cansado e dolorido e pensou no dia que teria de prosa com o padre, seu filhinho. Riu do próprio pensamento.“É, só posso é estar ficando louca, já tou a chamar ao padre filho!!!”A porta da cela é aberta violentamente, Felipa vira-se esperando ver o padre Pedro, mas não era dele a figura que estava ali parada diante dela com um ar de autoridade absoluta.A primeira reação da mulher foi encolher-se no canto da cela. O Bispo passava os olhos por ela desde a sua cabeça até os pés, parecia procurar alguma coisa escondida.Completamente apavorada não sabia o que fazer, queria sumir daquele lugar, ou que aquele homem parasse de olhá-la do jeito que estava fazendo.Lembrava-se de que uma vez a sua mãe tinha dito que o medo era a pior coisa que se podia sentir, porque paralisava como veneno de cobra, e que diante de uma cobra o melhor a fazer é não se mover.Assim ficou imóvel, paralisada, a boca já estava branca tamanha a pressão colocada para que os dentes ficassem travados, sentia o sangue correndo pelo corpo de uma forma que o deixava dormente.“Sim, pensou, estou diante de uma cobra traiçoeira e perigosa.”O bispo pediu ao carcereiro que a trouxesse para mais perto, queria olhá-la.Agarrando os braços de Felipa o homem leva-a, colocando-a diante do bispo no meio da pequena cela.Ele passa a inspecioná-la como a um objeto, medindo, analisando, julgando.Finalmente, pergunta:- Tens algo a dizer-me, pecadora?Felipa continuava imóvel, e mesmo que quisesse dizer alguma coisa não teria condições, estava petrificada de medo.E novamente escuta:- Continuas no teu silêncio, criatura do demônio? Soube que tens falado muito com o padre Pedro, já assumiste a tua culpa? Por acaso tentas seduzir o novato?Em escárnio, o bispo continua:- Ah, esqueci-me que não é por homens que tu te atrais, são as outras criaturas da tua laia que te apetecem.Queria abrir a boca, falar alguma coisa, expressar-se, mas nada, a cobra tinha-lhe picado a alma.- És tão porca quanto os que renegam o nome de Cristo, tão vadia quanto a mais baixa criatura da face da terra, só podes ser uma anomalia feita pelo próprio demônio. Deus irá entregar-te nas nossas mãos, para que a justiça a Ele seja feita! Herege, imunda, tu não passas de uma criatura vil, quantas mulheres levaste para o teu caminho, diz!!! Com quantas vadias tu te deitaste? Seria muito melhor perante Deus que entregasses as outras como tu, sabemos que se encontravam para adorar Satanás e praticar atos imorais. Tu sabes que a pena pode ser abrandada se entregares as outras que compartilham contigo desta imundície. Vais ficar aí calada? – gritou o homem.Depois de segundos, disse:- Bem, Deus é testemunha de que tentei.Virando as costas para sair do cárcere, disse em voz alta:- Saibas que voltarei a ter contigo ainda, resta-te tempo para refletir sobre a tua confissão e denunciar as outras.Felipa continuou paralisada em seu medo, não emitia um som, não movia um músculo, não sentia o tempo passar.Agora tinha a certeza do motivo pelo qual estava ali, ouvira da boca do próprio bispo, ele tinha tirado toda a dúvida que ainda pairava sobre a verdade... Quem? Por quê?Tempo!!! Quanto tempo ainda teria? O que teria que suportar?Tempo!!!!!!Levantando os olhos para o teto do abrigo como se olhasse o céu, começou a gritar para Deus, esperando uma resposta:- Por que não me matas de uma vez? Joga-me no meio de abutres, “urubus”, pois é isto que são abutres, todos de preto com olhos famintos de morte, por quê????? Acaba com a vida que me deste, se é que ma deste mesmo, pois aqui estou eu carregando uma culpa por ter seguido o que aprendi nas Tuas Palavras, estou aqui por amor!!! Qual é a minha culpa? Diz-me! Qual é a minha culpa? Por que me deixaste sentir tudo o que senti, faltei-Te com a verdade? Por acaso não falava com o Senhor sobre o meu tormento? Responde-me de onde estiveres! Porque parece que só Te diriges aqueles hipócritas e doentes para saber detalhes, é isto mesmo, detalhes, bem sabe o Senhor o que devem fazer quando estão sozinhos! Doentes! Abutres!!! Urubus!!!! Mata-me de uma vez, e tira-me deste tormento!!!! Por que me fizeste diferente, porque me fizeste amar e querer sentir-me amada não por homens, eu não sabia o que era amor até que me encontrei diante de alguém como eu, se este era o motivo para condenar-me, por que me fizeste assim?????Não suportando mais a tensão por que passou, larga o seu corpo no chão como um saco de grãos e fica ali, pesada, largada.A sua cabeça ensandecida procura um meio de tirar a sua vida ali mesmo, naquela hora, sabia que aqueles homens eram espertos, nem um pedacinho de madeira deixavam à mão, nada, olhava o chão buscando algo que pudesse usar para dar cabo do seu sofrimento, nada, nem o tecido que lhe envolvia o corpo seria suficientemente maleável para conseguir apertar o seu pescoço, nada. Desistiu e caiu num pranto que levava a nada!!!Nada!!!“Pobre Francisco”.Era a única coisa que lhe vinha à cabeça e repetia sem cessar.“Pobre de ti, não merecias passar por isso. Perdoa-me, já te pedi tantas vezes perdão, peço mais uma vez, perdoa-me. Tu não mereces o que devem estar a fazer contigo aí fora. Culpa minha! Culpa minha!”Tinha o marido como pai ou o irmão que nunca teve, não se recriminava pelo que viveu, mas sim pelo que tinha causado a Francisco.“Pobre de ti, homem!!! Que fosse pelas tuas mãos a minha morte, o meu martírio, não pelas mãos destes hipócritas mais podres do que eu. Se alguém tinha o direito de me amaldiçoar eras tu, não esta corja, e ainda em nome de Deus"!!!!!!“Por que não me mataste enquanto pudeste? Eu contei-te tudo e tu não fizeste nada, por que não me tiraste a vida? Poupaste-me para isto? Não pensaste que serias tão punido quanto eu? Por que te calaste e me deixaste solta, livre como se não te importasse? Querias que eu passasse por isto, pois estás passando comigo, nisso não pensaste!!! Pobre de ti.”.Naquele dia, quando o padre chegou, não quis recebê-lo. Ficou-se martirizando o resto do dia até o sono chegar, mas ele não veio.Não, naquela noite nada lhe vinha à cabeça a não ser o motivo de estar ali. O quanto se afligiu ao saber o que sentia nos braços de outra mulher! Mas foi aquela a única forma pela qual conheceu o verdadeiro amor. Não foi atrás dele, foi o amor que chegou até ela dessa forma, o que poderia ter feito? Negado? Negou por tempos, negou. Fugido. Tentou, mas o que sentia era mais forte do que a força que trazia dentro de si. Não iria culpar-se, não, chega, aprendeu e foi feliz, mais do que poderia supor que jamais seria, não iria negar o que havia feito, não negaria a ninguém nem que isso lhe custasse à vida. Já havia negado demais para muita gente, agora sabia que seria do conhecimento público e não abaixaria a cabeça pela vida que teve.Ali envolta em pensamentos e reflexões decidiu o seu destino.Mesmo que, pelo que tinha ouvido do homem, sentisse um gosto de fel na boca a perturbar-lhe o estômago.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-982655835667049985?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/982655835667049985/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=982655835667049985' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/982655835667049985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/982655835667049985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-v.html' title='CAPÍTULO V'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-5636650851417939970</id><published>2007-09-20T05:26:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:27:21.925-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO VI</title><content type='html'>O sol castigava Salvador, o calor estava cada vez mais insuportável, as pessoas nas ruas andavam de um lado para outro em seus afazeres diários suando sem distinção de classe social, pois o que iguala os homens na terra são as reações do corpo à natureza que Deus nos deu.Navios negreiros haviam desembarcado naquele dia, a comercialização estava prestes a começar, pessoas vinham de vários cantos do Brasil para o leilão dos escravos, ninguém tinha previsão de quantos dias poderia durar.Felipa ouvia a gritaria dos mercadores, mas já tinha se acostumado com aquilo, era parte da vida de quem morava ali.O porto era local de desembarque dos negros, e hoje Felipa conseguia entender o horror de um ser humano ser vendido ou tratado como bicho, era anormal, doente, e tudo por dinheiro. “O que move essa terra é isso, dinheiro e religião!” - pensou.Tentou comparar a sua situação com a deles.Concluiu que a sua era bem melhor. Tinha passado a sua vida livre e sem preconceitos. Somente hoje, depois do que soubera através do bispo, entendia o que era perseguição, o que era preconceito. Poderia dizer que a similaridade entre os negros e ela estava no fim da jornada. Ambos sabiam que poderiam acabar com a morte, eles por buscarem a vida livre, ela por ter vivido livre.Nada mais do que acontecia na cidade lhe interessava. Não compreendia por que a haviam colocado naquela situação, mas procurava entender, mesmo que nada entendesse.Como de costume recebeu do carcereiro o seu alimento diário, pão e água, olhou mais uma vez com desgosto, estava com fome, não era exatamente o que queria comer. Mas o que podia fazer, era essa a sua paga.Imaginou se o padre apareceria, afinal tinha mandado o homem embora no dia anterior. Sentiu raiva de si mesma, gostava da presença daquele jovem ali. Tinha-o como alguém a quem podia contar a sua vida, não sabia se toda ela, sentia que nas suas conversas estava passando sua vida a limpo, nada tinha que a envergonhasse, não se arrependia de nada mais agora.Paula veio-lhe à cabeça, não poderia acreditar que ela tinha cumprido o que prometera. Seria por medo? Mas quem, além delas duas, sabia?Ouviu passos fora da cela e se recompôs, e o carcereiro berrou que o padre estava lá para vê-la.Gritou Felipa, para que pudesse ouvi-la:- Abra a porta!!!O padre entrou com uma expressão sem graça no rosto, constrangido pela atitude da mulher no dia anterior. Carregava nos braços uma cesta com pães de vários tipos, frutas e um pequeno bolo.- Pediram-me que lhe entregasse isto.Os olhos de Felipa fixaram os do padre de forma indagadora e, surpresa, imaginava quem poderia ter-se lembrado dela a ponto de se preocupar com o seu estado físico.Sem saber o que dizer, perguntou:- Quem mandou me isto, padre?O padre, de olhos baixos, respondeu:- O teu marido.Lágrimas pesadas escorreram pela face de Felipa. Apenas brotavam de seus olhos e deslizavam por seu rosto.- O senhor encontrou-o, padre? Como está ele? O que estão a fazer com ele lá fora? Ele perguntou por mim? Conte-me, padre – suplicava.O padre sentou-se na cadeira pesada.- Estive com ele, sim, minha filha, não por ter pedido, mas por me sentir na obrigação de fazê-lo. Sei do carinho que sente por ele, não podia deixar de saber como ele estava. Fique tranqüila, está tocando a vida, decidiu sair de Salvador, parte em poucos meses, só está a acabar de resolver os problemas da venda da padaria, da casa, estas coisas.O choque de Felipa foi tamanho que ficou sem fala - “Ele vai embora, ó meu Deus, o que eu fiz a esse homem que tem um coração como poucos?” A culpa invadia-lhe a alma, olhou a cesta e nada disse, mas o padre continuou:- Ele pediu-me que lhe entregasse esta cesta, disse que aí tem coisas de que você gosta que deveria estar com saudades de comer. Tiveram que revistar, quase não me deixavam entrar, não é permitido, pedi com muita insistência, acho que os carcereiros já estão a simpatizar comigo, deixaram que eu lha entregasse.Ainda com as lágrimas escorrendo na face como se fosse uma reação natural do corpo, olha o padre como que pedindo perdão e diz:- O que eu fiz a este homem padre... Ele não merecia isto, se a culpa que sinto agora pudesse tirar-me a vida, sentir-me-ia eternamente grata a Deus... O que eu fiz com a vida dele... Por quê??? - a dúvida com relação à Paula lhe veio novamente à cabeça - por que me fizeste passar pelo que estou passar? – mas as suas palavras já não eram dirigidas a Francisco.- Minha filha, ele é um bom homem, apenas deve estar magoado com tudo isso, não é culpa dele – disse o padre, sem entender as últimas palavras de Felipa.- Eu sei que a culpa não é dele, eu sei... sei bem disto... Não era a ele que eu me estava referindo... o senhor entendeu mal.Parada, lembrou que pouco tempo atrás reclamava do que iria comer, de sua fome, agora não sentia fome alguma, apenas olhava para a cesta e sentia o líquido quente verte-lhe na face.Achando melhor que ela pudesse ficar em paz, o padre se dirige à porta, mas Felipa pede que ele fique, queria muito e precisava falar.Ele volta, senta-se novamente, prepara-se para ouvi-la.- Padre, não sei se o senhor vai querer ouvir o que tenho para contar, mesmo porque agora sei porque estou aqui, pois o bispo veio até mim e contou-me. Sei que estou aqui pela minha forma de amar, e sei que se lhe contar talvez não queira mais voltar aqui e vir-me-me, mas não quero e nem posso mentir ao senhor. Chega, preciso desabafar e sentir que posso confiar em alguém, e confio no senhor. Gostaria de saber se está disposto a ouvir.O padre não esperava pelas palavras de Felipa e viu-se diante de uma situação perturbadora. Queria ouvir sua confissão, óbvio que sim, mas se afeiçoara àquela mulher, não sabia se teria condições para ouvir o que já sabia, a verdade lhe seria muito dura, não queria julgá-la, mas como não fazê-lo?Pensa por um tempo e lhe responde:- Sei que, assim como para você será penoso falar, para mim será penoso ouvir, mas estou aqui desde o primeiro dia, disposto a escutar de ti tudo aquilo que te pesa no coração, então que assim seja.Aliviada com a resposta do padre, começa a contar aquilo que jamais havia contado a alguém:- Já disse ao senhor que não amava Francisco como marido, mas sempre aceitei a minha condição de esposa e cumpri todos os votos matrimoniais. Fui uma boa esposa por anos, padre, não queria mudar isso, não. Eu sofria muito por não ter um filho e sabia que não já teria, pouco nos tocávamos fisicamente, o senhor entende o que estou a dizer, padre? Eu sentia-me sozinha, muito sozinha, sentia que era uma meia mulher, afinal fui criada para isto, casar e ser mãe, coisas que acontecem na vida de toda a mulher. Mas o destino preparou-me uma peça, uma peça que eu nem imaginava existir.E continuando a falar, sentiu o tom de confissão.- Eu costurava para muitas mulheres de Salvador, até de outros lugares. Uma tarde eu estava no quartinho de costura a me ocupar do meu trabalho, precisava fazer muitas entregas antes do final da semana. Bateram na porta, o que não era o normal. As minhas clientes iam entrando, sabiam que eu ia estar lá. Estranhando a batida, larguei o que fazia e abri a porta. Lá fora, parada, estava uma mulher muito bonita, dava para ver que tinha posses. Perguntou-me o nome e eu respondi, disse para a mulher entrar, ela passou por mim cheirando a perfume caro, acho que nunca tinha sentido um cheiro tão bom, o senhor sabe que banho não é coisa para todos os dias, mas eu tinha a certeza de que o daquela mulher tinha sido naquele dia.Buscou na lembrança o cheiro, pode senti-lo quase presente naquele lugar imundo.- Fiquei surpresa, claro, eu costurava bem, mas as roupas daquela mulher não eram confeccionadas aqui, não. Aquilo tinha cara de roupa vinda da Europa. Pensava comigo mesma, “o que será que essa dona está a fazer aqui?”, nem podia imaginar, pedi a ela para sentar-se - o meu quartinho era bem arrumadinho, cadeiras, mesinha, parecia bem chique para as mulheres daqui. Ela passou por mim e sentou-se na primeira poltrona que viu. Cada vez eu intrigava-me mais, aquilo era muito estranho para mim. Virei-me para a dona e disse-lhe, educadamente - já disse que educação eu recebi, e boa - em que eu posso servi-la?A feição de Felipa demonstrava que não queria esquecer nenhum detalhe.Ela respondeu-me num tom muito empoado – Soube que você é ótima costureira – eu enchi-me de orgulho, ajeitei-me na cadeira para responder - é o que dizem – e lá veio ela com outra pergunta.- Será que estaria à sua altura fazer uns vestidinhos mais frescos para mim? Os que trago da Europa são quentes demais para o calor de Salvador.Fiquei muito irritada quando chamou às minhas roupas de vestidinhos, não me ia enfezar com a mulher, quem é que ela pensava que era para ir entrando e falando daquela maneira do meu trabalho? Eu só respondi:- Pois não, madame, é só dizer o que deseja, estou aqui para servi-la.Lembrou-se de como a sua vida tinha mudado, e em como tinha sido feliz, não iria arrepender-se pelo que houve!!!A mulher não tinha tecido nenhum nas mãos, perguntei-lhe o que queria que eu fizesse, a mulher olhou-me e disse:- Muitas coisas, a começar por um vestido simples para que eu possa saber se és tão boa quanto dizem.Padre, eu não sou de ficar brava nem de ter raiva dos outros, mas aquela mulher estava-me a deixar irritada.Respondi - às ordens. A madame vai trazer-me o tecido, já tens a metragem, ou prefere que eu meça antes?Ela respondeu:- Prefiro que tire as medidas antes para que eu possa saber o que trazer.- Pois não, respondi, fui pegar na fita de medidas, pedi-lhe para se levantar e lá veio outra pergunta:- Costumas trabalhar sozinha? – se bem que não entendi na hora o que ela quis dizer.- Trabalho sozinha sim senhora!!! - e lá veio mais uma:- Não tem nenhuma assistente?Olhando para ela, eu disse:- Para dizer-lhe a verdade, nem sabia que costureira precisava de assistente.Eu nem havia reparado na mulher, padre, mas na hora em que ela ficou em pé eu vi que estava na frente de uma mulher diferente, parecia não precisar de nada nem de ninguém, não agia feito um homem, mas olhava igual a um. Intimidei-me muito, fiquei parada a olhar para ela, mais alta que eu não muita coisa. Os cabelos vermelhos, lindos, cheios de cachos presos em cima, caíam atrás como uma cascata. Tinha os olhos azuis, um azul da cor do céu, padre, a pele parecia um pêssego, daqueles que de tão caros não dava para comprar sempre. Tinha o corpo arredondado, não era gorda, gorda não!!! Era bem feita de corpo, cheia de curvas.O padre estava ficando numa situação desconfortável, preferiu ouvir como em uma confissão, depois entregaria nas mãos de Deus, e aí seu serviço estaria feito, o resto era com Ele.Continuou a narrativa:- Muito educada perguntei o nome da madame, ela respondeu-me Elise, junto com um sobrenome difícil de repetir. Pedi à madame que ficasse de pé para que pudesse tirar-lhe as medidas, ela levantou-se e eu fui com a fita. Estava eu mais que acostumada a fazer isso, é parte do meu trabalho, mas a mulher deixava-me sem graça. Eu estava a tremer, padre, a tremer ao fazer uma coisa que tinha feito à vida inteira. O senhor sabe como é que se tiram as medidas, padre?O padre, mais que depressa, negou com a cabeça.- A mulher tem que tirar a roupa de cima, porque pode atrapalhar, pede-se para tirar o vestido e ficar com as bragas e a anágua, a madame estava de espartilho, coisa que não via muito nas mulheres daqui, incomoda, num dá para respirar bem, mas faz os seios saltarem para fora, realmente não era comum ver isto em Salvador. Sem vergonha nenhuma, ela tirou o vestido. Há mulheres que para fazer isto é um tormento, tamanha não sentem-se bem. A madame Elise não tinha vergonha não, tirava a roupa, naturalmente, o senhor entende. Até eu, acostumada com isto, fiquei um bocado sem graça. Continuando, peguei na fita e fui medir o busto, depois a cintura, os quadris, as pernas nem precisava muito, mas tirava-se assim mesmo, a altura que ia do ombro até a cintura, da cintura até os quadris, da cintura até ao comprimento, por fim do corpo todo.O padre ouvia tudo, mas este universo feminino era totalmente desconhecido para ele, algumas palavras ficaram sem explicação, não sabia o que significavam. Mas estava atento ao que Felipa discorria.- Sabes, padre, eu toda vida vi mulher como mulher, estava acostumada a ver assim, afinal em anos de costura, vendo mulher de anágua o tempo todo, nunca impressionei-me com nada disso, acho que a princípio nem com Elise, mas ela tinha personalidade, sabia o que queria, e fazia qualquer coisa para conseguir. E posso dizer-te ao senhor que conseguia. Nessa terra bem sabes que não existe tecido bom para fazer um vestido, muito algodão, chita, tem até seda, mas só para quem pode pagar. Acabada de tirar as medidas, disse quantos metros de tecido eu iria precisar, pois já havia me mostrado o traje que ela queria, e ela respondeu-me que traria no outro dia.Parou, tomou um pouco d’água da caneca para molhar a garganta e continuou.- Depois que ela saiu eu corri para padaria e contei tudo ao Francisco, ele disse-me que eu podia ganhar mais dinheiro costurando para essas madames finas, pois eu tentei dizer que ela era diferente, acho que ele não entendeu, na verdade nem eu entendia. Ela era fascinante. E olhe que naquela época eu estava satisfeita com a vida que eu tinha com o meu marido. Mas a vida engana a gente, e como engana!!!Pegou uma fruta de dentro da cesta e passou a degustá-la como se fosse pela primeira vez, parecia uma criança, observou o padre. Conforme ia comendo, ia falando.- Ela voltou no dia seguinte trazendo um tecido muito bonito, de uma cor que combinava com a pele dela, era clarinha, não tão branca como eu. Naquele dia ela passou a falar-me de um jeito diferente, havia alguma coisa na voz dela que parecia tirar-me do chão, e eu não estava entendo nada, padre, nada mesmo!!! Entregou-me o tecido e não se ia embora, começou a conversar sobre a minha vida, a perguntar se eu tinha um bom marido, eu disse que sim, jamais iria dizer que não, perguntou-me em tom muito sério se eu realmente era feliz, eu pensei “por que será que ela me está a perguntar isso?” Respondi que, como em todo casamento, tínhamos os nossos altos e baixos, nada que me fizesse ter alguma mágoa dele guardada no coração.Felipa jogou o caroço da fruta num canto, baixou a voz como que envergonhada e disse.- Perguntou-me quantos filhos eu tinha, e isto entristeceu-me terrivelmente, porque tive que responder que não podia ter os meus próprios filhos. Eu acho, acho não, tenho a certeza, que foi nesta altura que ela olhou dentro da minh’alma, e viu o quanto carente eu estava, sentindo-me sozinha, ela chegou-se perto de mim e abraçou-me, sei lá porquê eu agarrei-me a ela como se fosse minha mãe e chorei, ela acarinhava os meus cabelos e eu chorava como uma menina. Apeguei-me a Elise daquele momento em diante, talvez como a uma irmã que nunca tive. Nunca imaginei... Nunca...O susto dos dois quando o guarda abriu a porta lembrou-os de onde estavam e sobre o que estavam falando.O padre se levantou e disse.- É melhor que tires o que está na cesta, tenho que levá-la comigo, amanhã continuaremos a conversar. Deus te abençoe, minha filha.Felipa tirava os alimentos rapidamente, arrumando-os num lugar onde nenhum inseto ou rato pudesse pegá-los antes que ela visse. Só se deu conta de que o padre tinha ido embora quando acabou de arrumá-los.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-5636650851417939970?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/5636650851417939970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=5636650851417939970' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/5636650851417939970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/5636650851417939970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-vi.html' title='CAPÍTULO VI'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-7891143383456655308</id><published>2007-09-20T05:25:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:26:12.917-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO VII</title><content type='html'>Chovia torrencialmente na cidade, mas isso não atrapalhou a venda de escravos que estava acontecendo, o mercado não podia parar. Os negros estavam debilitados em decorrência da viagem, e os mercadores sabiam que quanto mais tempo demorasse a venda, menor preço alcançariam.O tempo ruim só fazia o clima ficar cada vez mais abafado, um calor úmido, sufocante, atormentava a vida das pessoas.Dentro da prisão o calor era pior, as paredes grossas, a falta de janelas e de ventilação fazia daquele lugar quase que o próprio inferno. Nem os guardas, sempre impecavelmente vestidos, estavam agüentando, abriam os colarinhos, procuravam abanar-se para aliviar o abafamento do lugar.Felipa sonhava em poder sair e se molhar na água que descia do céu de maneira violenta, queria se sentir limpa, pelo menos em seu corpo.Tinha aproveitado bem as coisas que tinha recebido, pouco restava do conteúdo da cesta que o padre lhe levara.O calor já não a incomodava mais, nada a incomodava mais. Agora que tinha começado a contar para o padre o que estava preso em seu coração todo esse tempo, nada mais tinha importância. Sabia que tinha que falar, não teria nada que a fizesse se livrar daquela situação, ela confiava nele, quem sabe falando não se sentiria melhor?O padre chegou mais cedo que de costume. Felipa estranhou, talvez fosse o tempo que o tivesse feito se apressar.Entrou molhado, e batia na batina como se isso fosse secar sua roupa, foi até à porta, pegou a cadeira e puxou para perto de Felipa. Começou a conversar trivialidades.- Está a chover forte, o calor está insuportável, quase não conseguia chegar cá...Estranhou o comportamento do padre, afobado, coisa que ele nunca tinha demonstrado, será que era a curiosidade, pensou, fosse o que fosse ele estava ali e ela continuaria até o fim!- É, percebi que chove muito mesmo – respondeu. O senhor correu muito para cá chegar? Parece-me um pouco nervoso.O padre, sem graça, respondeu:- É, corri, sim, e cansei-me, por isso estou assim, desculpe.Felipa encolheu os ombros sem que o padre percebesse, mas algo ficou no ar.- Como passou a noite, minha filha?Mais uma vez estranhando a falta de intimidade, respondeu:- Apesar do calor, bem, já comi quase tudo o que tinha na cesta, o senhor agradeceu Francisco por mim?- Sim, claro!- Obrigada, queria continuar a falar, necessito de falar, entende-me?- Entendo-te sim, entendo-te perfeitamente. Continue...Felipa ajeitou-se e continuou onde tinha parado.- A minha amizade com Elise foi crescendo. Apesar de rica ela nunca se importou com isto, passeávamos pelas ruas, fazíamos cestas de comida e íamos comer perto do mar, sempre conversando muito, ela sempre muito compreensiva comigo, acho que entendia a minha carência, apesar de eu perceber que ela também era carente, mesmo com tudo o que possuía. O marido havia morrido num combate com os índios, ela fazia o que tinha que fazer, sozinha com um administrador, era sabida como um homem para os negócios, ninguém passava Elise para trás não, possuía tino para fazer essas coisas. A nossa amizade era especial, na verdade nunca tinha tido uma amiga de verdade.Evitando o olhar do padre, continuou.- Francisco sabia que éramos amigas e que eu passava o meu tempo de folga com ela, nunca se incomodou com o fato, pelo contrário, incentivava a nossa amizade, dizia-me que ela fazia-me bem, que já não pensava tanto no filho que não podia ter, nem lamuriava-me com ele sobre isso. Mas um dia... - Felipa parou no meio do pensamento como que recordando o dia – um dia ela convidou-me para almoçar na casa dela, como de costume eu fui, cheguei mais cedo, não tinha nada a fazer mesmo e passar o tempo com ela era muito agradável. Bati à porta, a escrava da casa pediu-me para entrar, entrei e a moça pediu-me para esperar que ia avisar que eu já havia chegado. Voltou e disse para eu subir, que ela não se estava sentindo muito bem. Eu preocupei-me, sempre preocupava-me com a saúde dela, comia pouco, e dizia que não queria parecer uma matrona, mas toda a gente precisa de comer, e ela comia como um passarinho. A rapariga acompanhou-me até ao quarto, abriu a porta para eu entrar, fui entrando já zangada e dizendo que devia ser falta de comida, quando olhei para a cama, ela lá estava quase nua. Virei os olhos o mais rápido que pude. Foi um choque para mim, ao mesmo tempo sentia um calor subir-me ao rosto, o coração bater mais forte.Felipa não conseguia mais olhar o padre, cada vez abaixava mais a cabeça para poder continuar.Ela disse-me – que foi? - Eu disse - põe a roupa mulher, estás quase nua!!! Ela respondeu-me - é o calor, acho que me deu moleza. Como eu queria voltar os olhos para vê-la! Na posição em que eu estava só vislumbrava o lençol de seda na cama, era branco - ela parecia-me uma princesa, tão linda no meio daquela cama, seminua – montes de almofadas apoiavam o seu corpo. Chamou-me de novo e disse: - Vem cá, senta aqui - eu resistindo ao que parecia ser mais forte que eu dizia - não!Olhou sem graça para o homem ali sentado, ouvindo tudo que tinha de mais íntimo em seu coração.- Queres que eu pare?- Não, falas que te fará bem.E voltando para dentro dos seus pensamentos mais íntimos, continuou:- Ela chamou-me novamente, não resisti, sentei-me à beirada da cama e tentei manter-me o mais afastada possível. Ela sabia sempre conseguir o que queria, tinha uma maneira a pedir as coisas que era impossível negar. Quase caí da cama algumas vezes, até que ela segurou na minha mão e disse – dói aqui – mostrando-me o pescoço, e pediu – faz-me uma massagem, quem sabe a dor passa e já descemos. Eu concordei, mas para fazer a tal massagem tinha que me chegar perto dela, e a minha respiração já não estava normal. Pensei “isso que ela está sentindo deve ser contagioso, já estou doente como ela”, e fui-me sentar mais para o meio da cama enquanto ela virava-se de costas para eu poder massajar-lhe o seu pescoço.O cheiro dela embriagava-me. Ela deu-me um vidrinho com um óleo cheiroso e pediu-me para usá-lo. Molhei as mãos e comecei a espalhar o óleo no pescoço de Lise - pois é... depois eu comecei a chamá-la assim. Fui fazendo o que eu sabia, afinal eu não entendia nada daquilo. Sabia que o que estava a fazer não era massagem, eu já nem sabia o que era. Era mais que carinho, sentia cada pedaço do meu corpo querendo tocar-lhe a pele. Foi ai que ela virou-se para mim e me disse “eu sabia, sabia que ias acabar amando-me como eu te amo” - e beijou-me.Não posso descrever-te o que senti, porque era a primeira vez na minha vida que de fato me sentia mulher, completa, sem vazios, entreguei-me aquele beijo completamente, como se nada além de nós duas existisse no mundo, perdi a noção de tudo, estava pela primeira vez na vida apaixonada e era por uma mulher, exatamente como eu. Nada havia sido tão lindo e tão intenso quanto aquele momento que passei com Lise. Nós amamo-nos, como jamais havia amado e entregue a alguém, sentia que ela também estava entregue àquele sentimento por inteiro.Visivelmente chocado, o padre queria negar o que tinha ouvido, não queria acreditar que fosse verdade, mesmo que já soubesse, não!!! Ela tinha que dizer que aquilo não tinha acontecido. Se não, tudo o que diziam daquela criatura tão frágil seria verdade. Queria sair dali, não olhá-la com repulsa, mas havia se comprometido, havia dito que a ouviria, não!!! Mas sabia que ela iria continuar, e teria que ouvir mais e mais. Quanto tempo agüentaria?? Sua vontade era sacudir Felipa e fazer com que dissesse que era mentira, que aquilo era uma peça que ela estava pregando a ele. Ouviu que ela estava falando outra vez, e tentou ater sua atenção ao que dizia.- Depois daquele dia tornamo-nos amantes e amigas. Não pense que foi-me fácil admitir que a amava mais que tudo na minha vida, a culpa assolava-me a todo instante, por mais que ela dissesse-me para não pensar em nós como uma relação errada, eu não conseguia. Passei a não dormir direito, mal comia, atormentava-me, mas pensava em estar com Lise o dia todo, costurava pensando nela, tudo o que fazia os meus pensamentos estavam voltados para ela.Foi quando resolvi conversar com Francisco, dizer-lhe o que estava a acontecer. Eu tinha a minha consciência, sabia que aquilo não era correto, necessitava abrir o meu coração. Um dia estávamos a almoçar e, como quem nada quer, disse-lhe – Sabes a Lise? – ele virou-se surpreso e disse – Claro que sei, vocês dão-se tão bem, isso deixa-me feliz. - Eu continuei &amp;shy;– Acho que a gente se dá bem demais. - Ele nem demonstrou nada, sentimento nenhum, foi como se eu dissesse vai chover, mas eu continuei – Presta atenção!!! Eu acho que temos mais que uma amizade! - Ele olhou para mim e perguntou – Como assim, Felipa? O que poderia haver mais que uma amizade? - Respondi de uma só vez – Estamos apaixonadas, eu por ela e ela por mim.Eu penso até hoje se ele entendeu, pois não disse uma palavra e continuou a comer. Fiquei à espera de uma reação, qualquer uma, mas nada. Ele agiu como se eu nada tivesse dito, continuei a encontrar-me com Lise da mesma forma e com a aprovação dele. Queria que o senhor me entendesse, eu tinha contado ao meu marido e ele não recriminou-me, não bateu-me, não humilhou-me, não me pôs na rua, tratava-me da mesma forma, não só a mim como à Lise também, ele tratava-nos da mesma forma, o que o senhor queria que eu pensasse? Nunca entendi. E não entendo até hoje, mas passei a aceitar como ele aceitou. Se ele não me culpava, padre, quem poderia culpar-me, ele era o meu marido e aceitou!!!Pela primeira vez o padre lhe fez uma pergunta a esse respeito.- Há quanto tempo foi isso, minha filha? - O “minha filha” foi muito difícil de dizer, mas tinha que continuar a ouvi-la.- Foi há seis anos, padre.- Sei... E onde é que ela está?A pergunta deixou-a confusa, e disse:- Não sei por onde anda. Foi embora daqui há quatro anos.- E nunca mais a viu?Irritada com o tom de interrogatório, responde:- Nunca, e mesmo que soubesse onde ela está jamais falaria, como sei que ela jamais falaria algo a meu respeito. Estou abrindo-me com o senhor por necessidade, até de colocar todas as minhas dores cá fora antes que o pior aconteça comigo. Entendeu padre?Percebendo que havia ido além do que devia ele ficou quieto e acabou se desculpando pela insistência.- Eu disse-te que não vim julgá-la, e cá estou para ouvi-la - tentou convencê-la.- Bem, obrigada por pensar assim, já fui mais recriminada do que poderia suportar, e sei que esta história ainda não acabou.Pensando no que ainda estava por vir perdeu a vontade de continuar a conversa, queria imergir nos seus próprios pensamentos, e sozinha.- Por favor, se o senhor não se incomodar, poderíamos continuar a conversar amanhã? Eu tive um dia cheio de lembranças e gostaria de estar sozinha.- Não tem problema, filha, amanhã eu aqui estarei e, com certeza, você estará mais tranqüila. Entendo que queira ficar só.Levantou-se da cadeira, bateu na pesada porta, chamou o carcereiro, entregou-lhe a cadeira e saiu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-7891143383456655308?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/7891143383456655308/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=7891143383456655308' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7891143383456655308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7891143383456655308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-vii.html' title='CAPÍTULO VII'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-6272573266896745646</id><published>2007-09-20T05:24:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:24:32.058-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO VIII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fora da prisão, Pedro pensava em tudo o que Felipa havia lhe contado desde o momento em que entrou em seu catre pela primeira vez.Sabia, antes de conhecê-la, de tudo que estava sendo acusada, mas conforme a conhecia negava-se a crer que fosse verdade. Ainda podia ver aquela mulher sensível, meiga, um tanto ou quanto infantil, mas transparente. Não imaginava de sua boca saindo uma mentira. Agora sabia, nem que o chocasse ela faria isso.Foi andando lentamente até chegar à Igreja onde auxiliava outro padre, visto que havia chegado há pouco do seminário.Entrou no refeitório ainda vazio, estava esgotado tanto física como emocionalmente, queria apagar Felipa de sua cabeça e tudo o que ela havia lhe contado.Parado com a cabeça entre as mãos, não percebeu a entrada de dois homens, o bispo e mais um que não era de ordem alguma, era apenas um homem. Levantou a cabeça, foi até o bispo, beijou-lhe o anel, cumprimentou o outro homem e ia se retirando quando escutou a voz do seu superior:- Padre Pedro, poderia dar-nos um minuto da vossa atenção?Apanhado de surpresa, porém admirado pela deferência, voltou-se e disse:- Claro, Eminência! Estou à vossa disposição.- Poderíamos sentar-nos?- Claro! Claro! Onde deseja sentar-se, Eminência?- Pode ser aqui mesmo, estamos a sós por enquanto, se por acaso alguém adentrar iremos para outro lugar.- Sim, senhor! Estou aqui para atendê-lo, podes falar – disse, olhando para o homem que acompanhava o bispo.- Como anda aquela herege que tens ouvido?- Está melhor, Eminência, já se pode ver que está mais animada.- Não sejas inocente padre, estou a perguntar se a mulher já fala alguma coisa, pouco me importa se ela está melhor ou não, o fim será o mesmo, com ânimo ou sem ânimo. Ela tem contado-te algo que confirme as denúncias?O padre não sabia o que dizer, ainda bem que estava sentado – pensou - será que trairia Felipa? Mas traí-la do quê? Da verdade que estava à sua frente? De toda aquela podridão que lhe havia contado? Não a desprezava, mas desprezava o que tinha feito, com certeza se não tivesse sido impedida por alguém continuaria a fazê-lo.Mesmo assim não sabia o que dizer. Precisava de tempo para que pudesse pensar, a pressão por enquanto estava branda, sabia que em certo momento aumentaria a ponto de colocar o seu sacerdócio em risco.- Eminência tenho feito o possível para que se abra comigo, ela realmente tem-me dito coisas a respeito da vida dela, dos seus pais, do seu casamento, mas não denunciou ninguém. Não até agora.- Então, de agora em diante, a sua missão será a de retirar a verdade e conseguir que denuncie as companheiras daquela filha do diabo - e olhando Pedro com o olhar que Felipa definira tão bem como “de abutres” riu, olhou para o homem ao seu lado e disse-lhe – Quero que aquela praticante do roçadinho abra a boca! Isto não é um pedido, padre, é uma ordem!Apesar de chocado com o palavreado do bispo, respondeu:- Sim, Eminência.- Assim que achar necessário voltaremos a conversar.Assumindo uma atitude pomposa, olhou-o demonstrando todo o poder a ele conferido:- Pode-se retirar. Logo terás notícias minhas.Pedro dirigiu-se aos seus aposentos, muito parecidos com os de Felipa, sem conforto nenhum a não ser a cama, o colchão de palha, uma mesinha ao lado com um lampião e a sua bíblia.Olhando para aquele ambiente, pensava no que acabara de ouvir, não podia deixar de sentir uma certa antipatia pelo bispo e pelo seu companheiro. Como havia maldade na maneira com que falavam!!! Sabia que a sua posição era delicada demais, Felipa já falava, confessando-se a si mesma, e a Elise, se bem que nada podia fazer contra a outra, nada tinha de concreto.Pensou em quantas vezes quis ser um inquisidor, fazer parte daquela limpeza contra os pagãos, hereges e outros tantos que desonravam o nome de Deus e da Santa Madre Igreja. Será que conseguiria ser tão vil com Felipa, o que iria acontecer-lhe já estava decidido, nada que fizesse podia mudar o seu destino.O que queriam mais que ele fizesse àquela mulher? Que aflições esperavam que ela pudesse suportar? Até quando poderia manter em segredo aquilo que sabia?Ajoelhou-se e orou:“Deus, que atitude hei de tomar perante a vossa Igreja, poderei negar o que sei? Hoje, depois de conhecer aquela mulher, seria justo traí-la de forma tão baixa? Meu Pai que estais no céu, orientai-me, pois mesmo conhecendo a vossa palavra e sabendo da luta que travamos contra aqueles que querem manchar o Vosso nome, sentir-me-ei traidor e sem caráter se contar o que Felipa me disse em confissão. Não teria ela esse último privilégio, poder confessar-se e arrepender-se? Pois eu sei, Meu Pai, que no fim ela se arrependerá de ter pecado contra Ti”.Continuou um bom tempo nessa mesma posição orando e pedindo a Deus orientação.Na prisão reinava o silêncio absoluto, nada se movia a não ser os insetos e animais peçonhentos. Os guardas dormiam, mesmo que a ordem fosse para que ficassem alertas durante a vigília.As celas estavam todas cheias, a maior parte dos prisioneiros dormia ou estava em silêncio.Numa delas, porém, uma das mulheres encarceradas - e eram muito poucas as que ali estavam - fazia a vigília pelos guardas.Lembrava-se da conversa com o padre. Muito mais de Elise do que da conversa em si.Ainda podia sentir o seu cheiro, a maciez da sua pele, ouvir a sua risada limpa, vê-la movendo-se pelos lugares onde foram. Podia sentir o toque suave em seu corpo, lembrar o amor que juntas viram nascer, mas não morrer. Evitava pensar em Lise, sempre evitou nesses quatro anos passados. O amor que sentiu por aquela mulher não seria nunca igualado a nada que sentira depois dela.Foi nos seus braços que descobriu o que era amor, preencheu os vazios, acalmou o seu coração. Sabia que Lise a tirara de um estado depressivo e apático em relação à vida, ela ensinou-lhe que a vida só seria vivida através do amor.Que importava se fosse por uma mulher ou por um homem, o que mantinha as pessoas vivas era a capacidade de amar, Lise sabia disso. Quantas vezes teve vontade de ir ao seu encontro e começar tudo outra vez.Sabia que sua partida tinha sido por vontade própria, não havia lhe pedido para acompanhá-la? Mas não podia abandonar seu casamento.Pensava que teria sido muito melhor o escândalo na época do que ter exposto todos aqueles que a amavam hoje.Como pôde ter sido tão egoísta com Lise? Com o que havia entre elas? Acabou fazendo a mesma coisa com o marido, arrasou com a vida daquele pobre infeliz.Vil criatura, estragastes vidas, muitas vidas, inclusive a tua!!!Mudando completamente a direção dos seus pensamentos, lembrou-se do padre e de tudo o que lhe havia contado.Sabia que havia destruído a imagem que tinha criado dela, mas não mentiria, já havia mentido por muito tempo, com o que lhe restava de vida não valia a pena mais mentiras.Será que a desprezaria por ser quem era? Será que voltaria e a trataria com a mesma consideração que antes?Seria uma desilusão, tamanha a afeição que tinha pelo moço.Pensou:“Será que o que eu vivi é tão abominável assim? Não feri ninguém... Feri, sim, será que não enxergas a verdade à tua frente? Feri Francisco, feri os meus pais, feri os meus amigos, feri a Lise, e agora feri o padre."Cega!!! - dizia a si mesma – tu, além de egoísta és cega, Felipa, só te viste a ti, a mais ninguém...Contradizia-se no mesmo instante.Não!!! cega não, tu só procuraste ser amada e amar, isso não faz de mim uma criminosa, errei, sei que errei com muita gente, mas não comigo.Merda!!!!! - gritava.Eu só queria ser feliz!!!Que erro existe em ser feliz???Não segui nenhum padrão moral, isso não seria um problema meu?Quantas mulheres faziam o que ela mesma fez e não estavam ali pagando pelos seus atos?Seria ela quem iria carregar e sofrer o que as outras escondiam, ou mesmo mentiam?Paula!!! Tu sim és má, e onde estás agora?Escondida?Não!!!Impossível, se foste tu quem colocou-me cá , algo te aconteceu? Não a deixariam livre? Fizeste o mesmo que eu, se contaste o nosso caso e disseste o que fez, eu não estava sozinha, não fiz nada sozinha e bem sabes disso. Quem poderia dizer que tu me ensinaste coisas que, com todo amor que ainda sinto por Lise, desconhecia. Tu, sim, eras uma devassa, imoral, sem contar que o fazias em segredo... Puta de verdade!!! Não a amaria jamais!!! Foi esta a tua vingança? E eu não acreditei em ti...E se dissesse alguma coisa contra ti? Foste tu quem me procurou!!!Tu foste minha amante e carrasco... Devo a minha morte às tuas mãos!!!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-6272573266896745646?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/6272573266896745646/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=6272573266896745646' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6272573266896745646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6272573266896745646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-viii.html' title='CAPÍTULO VIII'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-5587804513106749276</id><published>2007-09-20T05:22:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:23:13.301-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO IX</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A noite ia alta e Felipa não conseguia dormir. Talvez, como ela, muitos estivessem na mesma situação.Não distinguia realidade passada da ilusão, verdade presente do pesadelo. Foi ajeitando-se aos poucos, mudando os membros de lugar, procurando sentar-se e abrir os olhos, mesmo que nada enxergasse devido à falta de lua no céu.Sua alma estava tão escura quanto a noite. Não parava de pensar desconexamente nas pessoas que fizeram parte da sua vida.Não se arrependia de nada que havia vivido, tudo que fez nos anos em que estava livre foi feito de maneira intensa e prazerosa. Tinha sido uma boa filha, sabia disso, amou seus pais e foi amada, viveu cada momento com eles de maneira a ter boas lembranças, sabia que eles não tinham sido felizes, mas isso era entre eles, com ela nunca foi demonstrado ou falado do desamor que sentiam um pelo outro.Percebia que os dois não tinham nada em comum, mas isso não era coisa para uma filha se intrometer.Deu graças por seu pai não estar vivo e por sua mãe estar longe de Salvador. Não queria que sofressem pela peça que sua vida havia lhe pregado.Achava que eles mereciam um pedido de perdão, afinal não tinha sido para isso que a criaram.Ajoelhou-se e começou um solitário diálogo, primeiro com o pai:- Pai perdoa-me por estar cá onde estou, a culpa não é tua, o senhor criou-me direitinho, quem me colocou aqui fui eu mesma, se bem que tive ajuda de fora. Eu sei que as coisas com a minha mãe não eram lá estas coisas, que faltava amor, eu nunca entendi o por quê da sua parte, a minha mãe foi uma das mulheres mais bonitas que eu já vi. E olhe, eu sei dizer se uma mulher é bonita, afinal costurei para tantas que até as conta perdi. Nunca entendi o que aquelas mulheres da rua possuíam que não achavas em minha mãe.Reflexiva, continua a falar:- Quem sabe se hoje sou mais capaz de compreender-te? Acho que o senhor queria mais do que ela podia oferecer-te, acho que posso entender, entendo, foi parecido com o meu casamento, o senhor escolheu-me um bom homem, velho demais para mim, é verdade, porém mais ninguém teria um coração tão bom como o dele.Sorriu de maneira compreensiva.- Eu lembro-me que, quando criança, não havia muito carinho entre nós. Eu sabia, sentia que o senhor amava-me, pela maneira como olhavas para mim, sempre orgulhoso das minhas perguntas, curiosidades, até das traquinices, eu podia ver nos teus olhos que se orgulhava por eu ser tua filha. Talvez não sentisses orgulho hoje, é por isso que cá estou a pedir perdão, o senhor pode-me entender, errou muito na vida perante os olhos de Deus, porque é isso que dizem hoje de tudo o que o senhor fez por aqui. É, acho que poderia compreender-me, afinal o senhor dizia sempre que errar fazia parte da natureza do homem, e eu pergunto-lhe: a mulher também não erra? Será que quando Deus escreveu na Bíblia “homem”, não podia junto ter escrito “mulher”?Dando de ombros, falou:- Não me arrependo do que fiz e de quem eu sou, mas estou a pedir perdão, na minha cabeça, um pai perdoa sempre, mais ainda bem que o senhor não estás aqui para sofrer com nada disto. Deus levou-o antes de passar por este vexame. Eu agradeço também a Ele. Sinto-me perdoada pelo senhor, pai. Fico mais tranqüila com isso. Obrigada pela compreensão. Amo-te, obrigada por me ter amado!Pensou no que iria dizer à mãe, afinal ela ainda estava viva, mas pediria-lhe perdão da mesma forma, talvez mais que ninguém a mãe saberia o porquê de todo o seu sofrimento.Não se ajoelhou, isso era para os mortos, não era o caso agora. Sentou-se no chão como de costume e começou a falar, querendo que a mãe a pudesse ouvir:- Pois, mãe, a senhora hoje é feliz ao lado do homem que amaste durante tanto tempo sem que ninguém viesse a saber. Já que estamos a conversar sem que ninguém esteja com as orelhas em pé, preciso de lhe contar que uma vez, muito antes de vocês irem embora daqui, eu segui-te. Pela primeira vez na vida vi o que era amor, porque olhei nos teus olhos e nunca mais esqueci o que vi. Refletia para todo o lado como um raio de sol, até eu senti como era calma e profunda a forma como olhou para o Capitão. Quero dizer-lhe que apoiei o teu amor, foi naquele mesmo dia que quis sentir-me da mesma maneira. Perdoe-me se invadi a tua vida.Disse isso com os olhos suplicantes.- É por essas e outras coisas que eu precisava de conversar com a senhora. Lembra-te da tua vida com o pai? Eu também sabia que não eram felizes, mesmo que achasse, ou melhor, tivesse a certeza que a mim amavam. Faltava alguma coisa entre vocês, pois é, lembra-te do meu marido? Ele foi sempre bom comigo, acho até que gostou muito de mim, mas 20 anos, mãe, é muita diferença, eu estava com 29 anos e iam-se 13 anos de casada, ele com 59anos. Não que ele não cumprisse com os deveres de marido, mas não era, ou melhor, nunca havia sido o que eu achava que seria, e olhe que às vezes para ele me procurar novamente levava meses, eu sentia falta, mãe, queria sentir-me amada de todas as formas, o meu corpo pedia, nunca disse isto a ele, não podia dizer que queria mais sexo do que ele me podia dar.Ele foi se afastando cada vez mais, porque percebeu que eu sentia muita falta do que me tocassem o corpo, até que não me procurava mais. Como um filho fez-me falta, mãe... Ainda não entendo porque é que Deus amaldiçoou-me desta maneira, hoje eu penso que não era para acontecer, mas como me dói até hoje a falta de um filho, chorei noites e noites, o coitado do Francisco consolou-me tanto!Mais uma vez perdeu-se em lembranças.- Se eu estou aqui, estou porque amei, amei uma única vez, as outras vezes eu sabia que não era amor. Infelizmente sofri, queria poder ter ficado com aquela que amei a vida inteira quando soube o que era esse sentimento, mas a vida faz-nos de bestas, e a gente não entende. O que eu quero que entendas, é que por amor as pessoas cometem loucuras, a tua deu certo, a minha não, mas não me arrependo não, mãe!!! Nunca me arrependi, pelo menos procurei como tu a minha felicidade, e nunca escondi do Francisco não, ele sabia e nunca fez nada, nem me repudiou, só passamos a dormir em quartos separados, afinal, coitado, devia ser duro para ele saber. Senti carinho da parte dele, e muito. Mas não era o tipo de amor que eu queria sentir, eu acho que se sou assim, foi porque Deus fez-me assim, e agora estes urubus querem fazer-me sentir que eu estava errada, e eu não estava, sei que não estava. Amar não é pecado, está até na Bíblia isso, como é? “Ame ao próximo como a ti mesmo”. Que é que eu posso fazer se os meus próximos não eram quem as pessoas queriam que fossem?Como que se desculpando, disse:- Falei demais, mas eu necessitava de dizer o que eu disse, sei que a senhora entende-me, porque amou e aos olhos dos outros também errou. Afinal, como o meu pai sempre dizia, o homem erra, no nosso caso foi a mulher. Mas ainda acho que Deus disse isso tanto para o homem como para a mulher, mas os abutres fedorentos que me jogaram aqui dizem que não, que a mulher é filha do demo. Não!!! Eu acho que lhes faz falta a eles é fornicar uma dessas filhas aí e saber o que podem sentir, e quem sabe Deus até pode fazer com que amem uma delas.Parou e disse para si mesma:- Agora chega, hoje o meu dia não foi fácil, falei com o padre coisas que nem sei se ele estava preparado para ouvir, fiz o que meu coração me mandava, e precisava de pedir perdão à senhora e ao meu pai.Mais uma vez fala com a mãe como se estivesse presente:- Perdoe-me e entenda-me, só peço isso à senhora, porque também enfrentaste o mundo por conta de querer ser feliz, e sei que hoje é. Se servir para alguma coisa perante Deus, rezes para mim, vou precisar de muita oração, já que os que aqui rezam pelos outros amaldiçoam-me. Obrigada, mãe, por me ter feito como eu sou e fui, mais uma vez perdoe se achar que eu errei. Amo a senhora, aprendi muito da vida com a tua vida.Entregue ao cansaço de ter aberto a alma de maneira tão crua para os pais, sentiu que podia descansar.Aquele dia dormiu aliviada, como se tivesse tirado uma das cargas de suas costas, apesar do peso que lhe fizeram sentir.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-5587804513106749276?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/5587804513106749276/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=5587804513106749276' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/5587804513106749276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/5587804513106749276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-ix.html' title='CAPÍTULO IX'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-8260293136751306026</id><published>2007-09-20T05:21:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:21:44.066-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO X</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Os dias iam passando e a agonia de Felipa crescia. Sabia que as coisas não iriam continuar como estavam, fazia meses que estava presa, nada acontecia, os interrogatórios não aconteciam, podia sentir uma apreensão no ar, o medo aumentava a cada minuto que corria, não sabia a intenção que aqueles “abutres” tinham com relação à sua vida. Seu pressentimento não era bom, isso tinha certeza, já ouvira as histórias da Inquisição, as mortes na fogueira, as torturas. Por que com ela as coisas não aconteciam de uma vez? A angústia da espera era pior do que o fim.“Sei o que querem de mim, isso já tinha sido deixado claro na visita que recebera do bispo. Delação!!!"Isso jamais faria se entregasse alguém sua pena poderia ser abrandada, mas não sabia qual seria sua pena. Se ao menos eles jogassem aberto e dissessem de uma vez o que aconteceria seria mais fácil.Dormira com ódio de Paula, talvez valesse a pena entregá-la, ou quem sabe implicá-la em seu caso.Não! Não era essa sua índole. Jamais colocaria a culpa em alguém por ser quem era, ninguém deveria pagar pela opção de amar uma mulher.“Aumentam os meus medos, sonhos que viraram pesadelos, sinto que a cada minuto o terror se apossa da minh’alma, os dias passam, os pesadelos não tem hora, são contínuos, não preciso mais de cerrar os meus olhos. O meu choro já não é de lamento, mas parte do meu corpo. Afluem lágrimas que se eu bem quisesse poderia bebê-las e matar parte da minha sede.Mas sede de quê? Que tipo de sede as lágrimas saciariam?Tempo!!! Espaço invisível que agoniza os meus dias.Tudo o que se passa neste momento é tudo o meu passado e nada o meu presente.Perco-me na pessoa que sou, não me encontro naquela que fui.Não mais possuo desejos, nem carnais nem espirituais, o que ainda mantém a minha mente sã é saber que vou expurgar o meu passado através do meu desabafo, e com isso espero encontrar o mínimo de paz para o que me aguarda”.Felipa espera seu encontro com padre Pedro, ansiosa para falar tudo de uma vez, tirar e o fardo pesado e muito maior do que poderia suportar.Mais uma vez ouve a porta se abrindo, a figura do padre demonstra uma preocupação aparente demais.Em sua ansiedade, Felipa o questiona:- O que aconteceu? Por que estás assim como quem viu o próprio inferno?Não sabia o que dizer, a resposta estava travada em sua garganta. Contaria a ela? Poderia suportar o que ela pensaria dele? Como não falar se ela havia sido tão honesta, não usando de subterfúgio algum para se expor como fez?- Problemas, Felipa – poucas vezes a chamara assim.- Diga padre, sei que nada posso fazer, quem sabe se, como eu, sentes necessidade de apenas falar.- Gostaria que fosse tão simples. Gostaria muito.- Nada é simples, veja a minha situação, pensas por acaso que está sendo simples expor a minha vida, assumindo ser julgada e sofrer o preconceito até da tua parte? Não!!! Nada é tão simples.Pedro pensava se talvez não fosse melhor falar como ela, abertamente, sobre o que estava acontecendo.- Ontem fui muito pressionado pelo Bispo - calou-se à espera da reação da Felipa.Ela dá um meio sorriso, como se já tivesse previsto, e responde:- Pedro – pela primeira vez tratando-o como um homem, que passava pela angústia de ser colocado sob pressão – realmente pensavas que isso não iria acontecer? Desde que cá estou esta é a única coisa que me mantém viva por aqueles hipócritas. Esperam que eu denuncie pessoas, que entregue os nomes das minhas “amantes”. Espanta-me terem esperado tanto tempo para que o pressionarem.A resposta de Felipa surpreende padre Pedro, que a olha com se a visse pela primeira vez.- Por que razão, se sabias de tudo isso, abriu-te comigo, falou do teu passado como se pudesse confiar que eu não me mancomunaria com os Bispos e os inquisidores?- Sinceramente, não sei, apenas confiei no meu julgamento, se o que falei me pudesse incriminar mais do que já fui, talvez poderia estar preocupada. Nada do que disse já não foi dito, claro que nada a respeito da minha família, mas eles nada têm com a minha prisão.A confusão saltava-lhe aos olhos, a expressão de Pedro era de uma perplexa felicidade.- E agora, Felipa, que queres que eu faça?- Nada, vou-lhe dizer tudo o que tenho para falar, apenas omitirei sobrenomes, dessa forma farei do senhor o meu confessor, e poderás entregar tudo o que eu disser nas mãos imundas daqueles que só procuram limpar-se através dos erros alheios, que nada tem com o que Deus quer, mas sim com o que o Papa, e seus “coroinhas” o fazem querer. Gostaria que a partir de hoje o senhor tomasse notas do que irei dizer, não ficarás em maus lençóis perante o Bispo e a sua corja. Peça ao carcereiro, ele deve ter algo que possas usar para fazer anotações.Indo até a pequena janela, o padre chama o homem e pede o que necessita.- Não quero que te sintas forçada a cooperar em nada, a tua vida já não tem sido fácil.- Faria isso apenas pelo senhor, padre, sinto que me afeiçoei a si. Talvez veja no senhor a figura do filho que não tive, espero que me entenda e perdoe.Não se chocou, mas surpreendeu-se mais uma vez com a espontaneidade daquela mulher. Com o material necessário nas mãos, perguntou-lhe:- Tens a certeza de que é isso mesmo que queres? Não te perturbará falar?- Não!!! Sinto-me agora muito mais segura para contar a verdadeira história, e não apenas a história que me expôs como uma aberração, não tenho mais nada a esconder, o que resta-me agora é confessar. Dizer quem sou, e por que sou como sou.- Muito bem, estou pronto para quando quiseres começar a falar.- Hum... Deixe-me lembrar onde parei, a minha relação com Lise. Hoje assumo, padre, que não foi um delírio ou uma simples experiência, foi realmente amor e escolha. Após ter-me aberto com o meu marido, parece que ficamos mais íntimas, tudo o que podíamos fazer fazíamos juntas. Muitas vezes, creia o senhor ou não, Francisco estava presente, claro que não falava muito, mas sei que ele simpatizava com ela. Cheguei a pensar, em muitas ocasiões, se não estaria satisfeito em ver o meu amor por Lise. Depois aquilo desaparecia da minha cabeça, preferia não pensar. Muitas noites passei naquela casa, afinal foram dois anos de um amor intenso, apaixonado, embriagante, éramos mais do que amantes, e sabíamos disso. Fomos companheiras, irmãs, amigas, confidentes, havia uma completa união entre nossas almas e corpos. Mas não penses que eu não sentia-me mal, sabia muito bem que era errado. Mas qual erro não compensaria o amor e a alegria que nunca tive na vida? Muita gente estranhava o nosso comportamento, nunca nos tocamos em público, mas agíamos como adolescentes. Eu acho que nunca deve ter passado pela cabeça dos moradores de Salvador que existia o que uma relação como a que vivíamos, tamanho o moralismo que existe contra as mulheres. Bem sabes o senhor que não podemos fazer absolutamente nada, e uma mulher andando com outra não geraria muito falatório.Quatro anos e ainda não a esqueci. Penso nela quase todos os dias da minha vida. Lembro-me muito da minha mãe, que durante anos se amou o capitão à espera da sua volta. Esta esperança já não tenho, sei que nunca mais poderei vê-la. Que o tempo não permitirá. O que me estão a dar de sobra aqui, jamais poderia proporcionar-me um minuto apenas de felicidade ao lado da mulher que amei. Acho que me conformei com essa idéia, quem sabe o mundo de Deus seja diferente e aceite os que amem realmente a ponto de dar a vida por amor.O padre achou melhor se calar e omitir em seus apontamentos o que ela havia dito, senão provavelmente seria queimada na fogueira em poucos dias.- Não seria capaz de dizer-te em pouco tempo tudo o que aquele anjo significou para mim, era um amor tão puro, sei que não pensas assim, nem o mundo, mas era. Nunca houve entre nós nada que não fosse por amor. Lise viajava muito, tinha que tomar conta dos negócios. Eu sentia uma saudade que chegava a doer. Correspondíamo-nos se por acaso ela ficasse muito tempo longe, mas isso aconteceu poucas vezes. Infelizmente, sabia que isto era parte da vida que ela tinha que conduzir.- Nestes dias colocava o meu trabalho em dia, produzia como nunca, o interessante é que a minha costura ficou mais aprimorada, a minha sensibilidade feminina aumentava a cada dia, as minhas clientes até elogiavam o que eu mesma criava. Engraçado, eu sentia-me muito mais mulher, consciente do meu corpo e do corpo das outras mulheres. Parecia que algo novo se tinha acendido para a minha condição de fêmea. Até Francisco me elogiava, nunca entendi aquele homem. Diga-me se era normal? Por favor, não coloque isso aí, tenho medo que possam ir atrás dele. Não quero que o persigam por minha causa, já chega o que eu causei à vida dele.O padre ia anotando tudo, dando as devidas ressalvas que Felipa lhe pedia.Ela pára de falar e pede a Pedro:- Por favor, peço-te que só entregues isto depois de eu terminar de contar tudo o que preciso, será possível?Em resposta o padre pára e pensa: tenho que lhes dizer alguma coisa a eles, pensarei em algo, não posso omitir por completo, mas...- Posso dizer-lhes que está muito debilitada, fala devagar e muito pouco, o que acha?- Esta parte eu não entendo, o melhor é que saia da cabeça de quem saiba como os “abutres” pensam... - e sorriu.Pedro pára, respira fundo, olha diretamente para o rosto de Felipa e despeja de uma vez, sem rodeios:- Preciso dizer-lhe algo – disse em tom tão sério que a mulher se assustou.- Quando começou a contar-me sobre a Elise, não queria acreditar, você há de compreender que cresci num seminário, que qualquer coisa que não consta nas escrituras me é estranho, muitas vezes chocante. No primeiro dia, queria que não estivesse me dizendo a verdade, não podia acreditar que no meio de tanta meiguice... – calou-se pensando na melhor maneira de falar sem a ofender – pudesse ter acontecido realmente o que consta na denúncia. É... sou um homem de pouco conhecimento da vida, mas muito das palavras. Amor para mim sempre foi o que dediquei a Deus, e esse é inigualável, peço que me entendas, orei muito, pedi ao Pai que me fizesse entender, que pudesse ter a capacidade de a não julgar. Entendi minha filha, que o amor de Deus é assim, ama-se o errado, porque o certo, aos seus próprios olhos, não necessita de ser amado. Hoje posso sentar-me aqui e ouvi-la sem que me choque ou que a julgue, pensei muito em Cristo, o quanto perdoou, andou e viveu entre pecadores. Sabes que pecou, disto tenho certeza porque me disse que sabia não ser correto, mas diga-me, quem nunca pecou? Existe um tamanho para o pecado, ou comparação, não é mais pecador aquele que mata sem razão alguma do que aquele que ama, mesmo que fora dos propósitos divinos? Peço-te que me perdoe, se estou aqui hoje consigo é porque amo a si como Cristo amou os homens, sem se importar com os teus erros.Felipa sentiu uma grande ternura e afeição por aquele homem, mesmo sabendo que a visão dele não se parecia com a sua, entendendo o esforço que ele fez para aceitá-la como ela era. Os seus olhos encheram-se de lágrimas, dessa vez não eram de tristeza, mas de amor, um amor fraternal que jamais havia sentido desde que a sua vida foi exposta ao público.Sem malícia ou pudor abraçou o padre Pedro com todas as suas forças e disse apenas:- Obrigada!Na porta, o barulho dos ferrolhos se fazia ouvir. Eles se separam rapidamente, com a promessa do novo dia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-8260293136751306026?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/8260293136751306026/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=8260293136751306026' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/8260293136751306026'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/8260293136751306026'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-x.html' title='CAPÍTULO X'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-7740078478628302113</id><published>2007-09-20T05:19:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:20:14.469-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XI</title><content type='html'>O coração de Pedro sentia um alívio imenso, parte de sua obrigação seria cumprida, e com a anuência de Felipa. Sabia que mais do que isso podia custar-lhe a vida, porém não a forçou a aceitar a confissão, uma vez que já tinha permissão para entregar os escritos aos seus superiores.Entrando em seu pequeno quarto guardou os papéis e solicitou que lhe entregassem algo para fazer suas anotações de forma oficial. O pedido chegou aos ouvidos do Bispo, que mandou chamá-lo à sua sala.Pensando no que iria dizer rumou na direção que lhe foi ordenada. Ao chegar diante da porta entalhada, de uma riqueza impressionante, pensou em como a vida dos servos de Deus era diferente. Não que se incomodasse com seus aposentos, mas havia outros em pior situação que ele. Olhou com desgosto e bateu à porta.Ouviu a voz desagradável do Bispo mandando que entrasse e fechasse a porta atrás de si.- Muito bem padre, quer dizer que aquela profana resolveu falar? – perguntou, em tom de desdém.- Sim, Eminência, ela concordou em fazer a sua confissão - respondeu.- E as denúncias? Ela fará?- Sinceramente, Eminência, não posso responder, pois nada foi dito a esse respeito, creio que as palavras e as denúncias virão conforme ela for-se confessando dos seus erros. Não quis pressionar a acusada, receando que se calasse.O Bispo olhava para o seu anel, analisando as palavras de Pedro.- Fizeste bem... com um pouco de persuasão da tua parte, com certeza ela entregará as que faltam ser punidas. Soube que requisitou material para fazer anotações.- Sim, Eminência, ela permitiu-me que escrevesse toda a confissão. Mas está fraca, muito debilitada, fala aos poucos, muitas vezes precisa de uma pausa para descansar, o senhor sabe que a alimentação não contribui para que tenha forças suficientes. Mesmo devagar, ela falará.- Quero isso o mais rápido possível, nem que tenhamos que aumentar a ração do dia. Que pensas disso?- Eminência, não seria correto que eu pudesse opinar por decisões que competem ao senhor e aos demais inquisidores.- Boa resposta padre, boa resposta... pensarei em algo que possa colaborar com a confissão da imoral. Agora pegue o material necessário e não perca tempo, o Tribunal de Lisboa pressiona-nos.- Posso-me retirar, Eminência?- Sim, claro, saia... Vá descansar, amanhã terás mais um dia cheio pela frente... saia.Beijou o anel do Bispo mais uma vez, retirou-se, pegou no que necessitaria para as suas anotações e dirigiu-se aos seus aposentos. Lá anotou o relato do dia, com as devidas ressalvas.Tirou a batina, a única que tinha, e deitou-se. O sono foi mais tranqüilo naquela noite.Na prisão, Felipa, lembrando-se do que havia dito e ouvido do padre, pôde sentir uma doce e profunda calma na sua alma.Todas aquelas recordações vindas à tona em suas conversas com Pedro faziam Lise cada vez mais presente em seus pensamentos. Agora não mais tristes, mas recordações como de um soldado em guerra que se lembra dos bons dias vividos para poder prosseguir nos dias incertos.Deitada, sonhava acordada:“Belos olhos que meus já foram um dia, que ao fitarem-me o rosto enchiam-se de alegria, quão sensuais eram quando sorriam das minhas infantilidades! Lembro-me das tuas mãos pequenas sempre em movimento, como se não pudessem parar, quantas vezes, nas nossas brincadeiras, lhes dei bofetadas com carinho para que sossegassem, somente para sentir o toque das minhas mãos contra as tuas! Não estou aqui por ti, mesmo que estivesse teria valido a pena amar-te muito mais que ser amada.”“Às vezes imagino-te aqui comigo apenas para que possa adormecer, a minha imaginação é uma nascente de um riacho, começa num fio, alonga-se quase a perder de vista, possibilita-me sentir-te aqui, os teus cabelos vermelhos como fogo, lembro-me deles espalhados na relva, o contraste era impressionante, vermelho e verde qual bandeira de Portugal.Quantas vezes penso que descobrimos o impossível de ser descoberto, o amor na mais pura forma, não me sinto suja como querem que me sinta, quanto mais penso em ti mais pura, limpa sinto-me, tive contigo o que muitos sonharam e sonham sem jamais conseguir.“Acalenta-me num sono em que possa sentir que nele estás e me dê forças, minha amada, para que possa enfrentar a dor da realidade que rogo a Deus jamais possas sentir. Deita-me em teus braços e faz-me dormir.”E Felipa dormiu sentindo paz, mesmo com todo pesadelo à sua volta, não pensou em nada, sonhou como há muito nem pensaria que fosse possível.A madrugada ia alta, foi despertada por gritos apavorantes, sentou-se ouvindo o terror que rondava aquele lugar, tapava os ouvidos, não queria ouvir, sabia o que estava acontecendo, cada vez mais os gritos se tornavam mais altos, mais assustadores, encolhia-se num canto, cobria a cabeça, sentia-se tonta, nada podia fazer, sabia que logo seria chegada a sua hora. Num ato de desespero começou a gritar, mesmo sabendo que ninguém a escutaria:“Não gritarei, não darei esse gosto aos que esperam ver-me em pranto e agonia, não derramarei uma lágrima sequer, podem-me surrar, podem-me torturar, façam o que quiserem comigo, nenhum som sairá dos meus lábios, nada!!! Nunca!!! Jamais!!!! Se tiver que morrer morrerei calada, sem que nunca possam dizer que reagi como uma arrependida. Nunca!!!!!”Os gritos cessaram, mas o sono de Felipa não voltou, e passou o resto da noite tremendo feito criança, carente, sozinha, esperando que a alvorada lhe trouxesse um pouco de calma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-7740078478628302113?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/7740078478628302113/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=7740078478628302113' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7740078478628302113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7740078478628302113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xi.html' title='CAPÍTULO XI'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-9218097262590982989</id><published>2007-09-20T05:18:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:19:01.704-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A cidade estava em polvorosa, via-se uma movimentação anormal da população. Da prisão saiam em fila pelo menos 30 judeus que retornariam a Portugal para serem julgados.Ao verem o estado em que se encontravam, muitas pessoas do povo comentavam em voz baixa que jamais chegariam nem ao cais, pois os corpos sangravam, mostrando a tortura a quem quisesse ver.Era uma procissão horripilante, aquelas pessoas acorrentadas pelos calcanhares, andavam em ritmo lento, pois não conseguiriam manter uma marcha mais rápida.Alguns, inconformados, exclamavam:- Parece o martírio de Cristo, olhem essas marcas! – e apontavam para as feridas abertas nos corpos fragilizados.Como um cortejo fúnebre, os habitantes viam pela primeira vez o horror que estava em poder da Santa Inquisição, mas calados foram-se dispersando...Pedro, que saía da igreja em direção à prisão, calou-se diante da cena, anteviu o que estaria prestes a acontecer com Felipa, seu coração se encheu de fúria, não podia acreditar em tamanha brutalidade.Ao entrar na cela viu Felipa aterrorizada, olhou-a consternado, via seus olhos congestionados pelo pavor, agachou-se e aninhou-a em seus braços.- Que houve filha? - perguntou-lhe, aflito.- Gritos, padre, a noite toda, gritos de dor, de medo, de morte... gritos!!!- Acalme-te, acalme-te!- Que aconteceu cá? O senhor precisa de me dizer, que aconteceu?Nada havia a fazer senão contar a verdade, o padre narrou a cena que presenciou a caminho de lá.Felipa gritava:- Eu jamais darei um só grito, mesmo que me matem a chibatada... ninguém verá verter uma só lágrima do meu rosto!!! Por isso gritaram tanto, como devem ter sido torturados... Por que, padre? Por quê? Já não iam embora de qualquer forma, a sorte que os espera em Portugal não é pior do que a daqui? Por quê?- Esqueça Felipa, esqueça, nada disso lhe irá acontecer.- Como não? Por acaso eu estou aqui a passar férias? Achas que sou burra e não entendo qual será o meu castigo? Mas não gritarei, jamais!!!E permaneceram abraçados por algum tempo. Pedro sabia que lhe trazia conforto, pode sentir a calma ir voltando aos poucos, achava melhor não tocar em assunto nenhum hoje.Felipa levanta os olhos e diz:- Não sei quanto tempo me resta, preciso falar, vamos começar logo com isso, tenho que ter tempo, pegue nas suas coisas, vamos...A excitação com que falava demonstrava o medo que sentia, mas fez o que lhe foi pedido.- Posso começar? Posso?- Sim, minha filha, pode - respondeu, preocupado com o estado de Felipa.- Vivi esse amor durante dois anos e não a esqueci. Um dia estávamos sentadas na beira do mar conversando, brincando, mexendo na areia, quando ela se virou para mim e disse, num tom muito sério: – Preciso falar contigo, Felipa – Eu sabia que alguma coisa estava por acontecer, nunca naqueles dois anos ouvi a sua voz naquele tom. Ainda tentando brincar, respondi: - Fala logo, senão atiro-te areia! - Mas ela repetiu: – Por favor, escuta-me, é sério! – Eu não queria ouvir, com medo do que ela me dissesse que o seu amor tinha acabado. Eu matava-me!Ela continuou: - Preciso partir... - Eu respondi: - Mas tu viajas muito, Lise, qual é o problema disso? - Ela nunca foi dura comigo, mas naquele dia foi diferente. - Preciso de uma resposta tua agora! – Novamente tentando amenizar eu disse: - O que queres que eu diga, vamos, fala? – Ela segurou-me nos braços e despejou uma dura realidade: - Tu sabes que preciso de viajar muito - eu sei - só que desta vez vou para sempre – quase desmaiei, ela segurou-me e continuou: – Quero que vás comigo embora daqui. - Fiquei sem fala, não raciocinava direito, a frase ir embora daqui ficava martelando na minha cabeça. Tentei desviar os olhos, não responder, mas ela estava irredutível. – Responde à minha pergunta, Felipa!!! – O meu casamento - pensava eu. Mas não conseguia dizer nada. - Tenho que voltar para a França com urgência. – Nunca tinha tido que tomar uma decisão tão difícil na vida. Ir com Lise ou ficar com Francisco? Se fosse com ela ele morreria, pensava eu. Se não fosse com ela, quem morreria seria eu.Fitando a porta como se pudesse ter tomado a decisão antes, continuou:- E o Francisco, Lise? O que será da vida dele? – ela insistia – e a minha vida, e a tua? E o que sentimos? – Lembro-me como se fosse hoje, padre, segurei a minha cabeça como se fosse enlouquecer, e disse não posso, não posso!Da mesma forma que descrevera estava agora, segurando sua cabeça.- Ela levantou-se e partiu. Fiquei sentada na areia um longo tempo, a noite estava quase a chegar quando decidi ir com ela, corri até à sua casa, bati à porta como louca, não parava de bater, depois de algum tempo aparece um escravo, eu perguntei – Onde está Lise? – a resposta paralisou-me – Foi-se embora, madame, e já faz umas duas horas.Eu não podia acreditar que ela tinha ido sem ao menos se despedir de mim, agarrei-me ao batente da porta sentindo que iria desmaiar, e gritava, já não falava: - Para onde foi ela, diga-me, para onde??? - Partiu num navio que ia para o Rio de Janeiro e de lá sei que ia para a terra dela. - Sentei-me no chão em prantos, morta por dentro. O escravo olhava-me e não entendia nada, provavelmente. Fiquei assim até noite alta. Depois de chorar todas as minhas lágrimas, voltei para casa, o meu marido estava preocupado, foi ao meu encontro e disse – Que houve contigo, Felipa? Onde estiveste até agora? Sei que não estavas com Elise, pois ela passou por aqui para te deixar uma carta, onde estavas, mulher? – Eu nada respondi, peguei na carta das mãos de Francisco e fui para o meu quarto. Sentei-me na cama e li: “minha amada, sabia que não virias comigo, pois conheço o teu caracter e sei que não suportarias deixar Francisco em tal situação. Fui sem me despedir, pois não suportaria deixar-te e embarcar sem provavelmente fazer com que Salvador inteiro soubesse que te amo. Quero que saibas que nunca amei ninguém como te amo, e sei que carregarei esse amor pelo resto da minha vida. O que posso dizer-te mais, não tenho forças para escrever nem uma linha. Fica certa do meu amor por ti, e que não importa onde eu esteja amar-te-ei eternamente.”.- Padre, foi a maior perda da minha vida, acho que até maior do que a vida que sei que perderei.O seu olhar estava vazio naquele instante. Pedro sentiu como aquela mulher havia sofrido com a separação da sua amada, continuou em silêncio quando ouve a pergunta:- Será que pelo nome dela eles podem localizá-la? Não quero que isso aconteça, mas quero fazer um pedido ao senhor, depois que tudo isto passar tente encontrá-la e dizer o quanto a amei e ainda amo, que cheguei a procurar por ela, mas os meus recursos eram poucos, infelizmente nada consegui.O padre comprometeu-se a fazer a sua vontade. E faria!- Você quer continuar ou prefere que paremos por hoje?Felipa respondeu ainda aflita:- Preciso continuar, não sei quanto tempo me resta. Depois que ela se foi, caí numa apatia sem igual, passei meses sem querer fazer nada, nem costurar, que sempre foi a minha alegria. Francisco via o meu estado e tentava animar-me, contava casos engraçados, mas nada me tirava daquela inércia, nada, foram meses, longos meses, quase um ano. Mas, como dizem, a vida continua, e aos poucos fui ganhando forças para voltar a enfrentar o mundo. Nada tinha graça, nada fazia-me feliz, sentia a falta da presença dela, física e emocional. Fui tocando a vida, as minhas costuras e o meu viver sem graça. Às vezes sentia que não recuperaria-me jamais, e é verdade, jamais recuperei-me da partida de Lise, nunca mais fui feliz. Deves saber como é difícil perder alguém que se ama, e olhe que o meu pai já havia morrido antes de eu conhecer Lise.Como se lembrasse de alguma coisa importante prosseguiu:- Não lhe contei como o meu pai morreu. Uns meses antes de conhecer Lise, a minha mãe já não morava aqui há anos, mas o meu pai continuava com a mesma vida de sempre. De repente ele começou a passar mal, muito mal mesmo, nunca tinha demonstrado problema nenhum com a saúde, mas começamos a perceber, mesmo que não se queixasse, que umas manchas lhe apareciam na pele. O seu cabelo começou a cair, foi tudo muito estranho e rápido, andava mais nervoso do que o normal. Com o tempo foi passando a enxergar pouco, levamo-lo ao doutor, ele disse que o meu pai estava com sífilis, sem cura, nada poderia fazer para que se curasse. Foi um sofrimento ver o meu pai definhando a cada dia, até que de tão doente que estava não agüentou mais, e veio a falecer. Foi triste, avisei a minha mãe do ocorrido, mas nem daria para ela vir para o enterro. Foi assim, coitado, que Deus o tenha!!! O senhor sabe, a minha ligação com ele não era assim cheia de atenções, mas eu amava-o, foi triste vê-lo morrer devagarinho. A vida é assim, uns morrem, outros nascem, tudo está sempre a rodar, eu sei isso. No dia em que eu for embora, com certeza alguém vai nascer naquele dia, é assim, padre, vão uns, chegam outros.O padre corta-lhe um pouco o assunto e conta a conversa que tinha tido com o Bispo na noite passada. Ela riu e disse:- Acho que ele me vai dar mais comida para ver se eu falo mais depressa.Curiosa, pergunta a Pedro:- E a tua família, padre, onde está?Sem jeito e envergonhado sem saber por quê, responde:- Não tenho família, Felipa, fui abandonado num seminário. Criado por padres, acabei tornando-me um.- Como assim não tem família, toda a gente tem? Pode até não saber quem é, mas que tem, tem!!! Nunca quis saber quem eram? Não teve curiosidade?- As coisas num seminário são bem diferentes que fora dele, lá diziam-me que tinha sido a vontade de Deus que eu tivesse sido abandonado ali, nem adiantava ir procurar porque jamais encontraria alguém. Diziam que, se alguém fazia aquilo, devia sentir no coração que essa era a vocação da criança, que ela ficaria melhor sendo educada por eles.- Velhacos sem vergonha estes que o criaram, o senhor desculpe, mas tenha lá santa paciência, enganar um menino dessa maneira, isso sim é pecado!!!- Acostumei-me tanto a ouvir isso que acreditei ser verdade, hoje já não importa.- Pois devia importar-se, sim, quem sabe a tua mãe ainda está viva? Que barbaridade!!! Se já não tinha motivo nenhum para gostar deste povo, agora tenho menos ainda.A porta fez o rangido de que estava sendo aberta e a conversa cessou.Despediram-se, cada um foi para seu canto com seus pensamentos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-9218097262590982989?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/9218097262590982989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=9218097262590982989' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/9218097262590982989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/9218097262590982989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xii.html' title='CAPÍTULO XII'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-6267084177171308231</id><published>2007-09-20T05:12:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:12:28.266-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XIII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O bispo ordenou que enviassem mais comida à Felipa, nada que fosse uma iguaria, mas sua alimentação melhorou muito. Passou a receber três rações por dia, pão, água e uma fruta.O dia em que começaram a trazer o alimento a mais foi motivo de riso e comentários a respeito da pressa que tinham.Felipa iria começar uma outra etapa de sua vida, talvez essa fosse mais desagradável ao padre do que ele podia esperar, mas a decisão já estava tomada. Fosse qual fosse a reação dele teria que suportar, afinal agora já era uma função ordenada, não mais por vontade própria.Como de costume, com todo o aparato para começar a tomar notas, o padre avisou que já estava pronto para a continuação. Felipa pensou “tá nada padre, tá nada”. Sabia que não tinham mais como voltar atrás.Sem jeito, mexendo-se mais do que o normal, Felipa começou:- Como eu estava a dizer, passei mais de um ano de penúria com a partida de Lise. Sabe como é a vida, eu sofria, mas o meu corpo pedia, a carne é fraca, padre. Fraca demais! E lá estava eu, saudosa, mas carente, o senhor desculpe, mas eu tinha apreciado aquele tipo de vida. Não que não a amasse, mas ela não estava ali, maldita carne.Tentava de todas as maneiras amenizar o que deveria contar, desculpava-se, culpava a carne, tentava desviar o assunto, olhava para o teto, sabia que deveria começar a falar. Mandou tudo às favas, encheu o peito e começou:- Pois, mais de um ano e eu sofrendo, não é que um dia... quem eu encontro, padre? Adivinha?O padre nem abriu a boca.- A Quitéria, lembra-te dela? A minha amiga de criança, eu falei dela ao senhor. Já era mulher como eu, e como era bonita, bonita desde criancinha. Eu andava pelas lojas, procurando umas coisas de costura, quando vejo uma negra vindo na minha direção. Olhei bem, pensei - conheço esta aí - continuei olhando a mulher, ela passou por mim sem me reconhecer, eu devia estar mesmo um trapo, virei-me para trás e aí reconheci pelo jeito como rebolava a nádegas... e gritei - Quitéria!!! - Ela virou-se para mim com um olhar de quem não sabia quem eu era. - Sou eu, a Felipa! - Quando eu falei ela abriu um sorriso e veio para perto de mim, e eu perguntei - Por onde andas, mulher? Tás fazendo o quê? Quanto tempo!!! - Respondeu-me que estava bem, eu perguntei-lhe pela velha, ela contou-me que tinha morrido, dei graças a Deus. Perguntei pela mãe dela, contou-me que tinha morrido, eu já estava a ficar desanimada com tanta tragédia. Aí a carne falou mais alto, tasquei a pergunta - Que andas a fazer, mulher? - pra minha surpresa, ela respondeu-me - Nada, sou amante de um coronel de Ilhéus que vem a Salvador de tempos a tempos, fica comigo uns quinze dias e depois volta para a terra dele - eu pensei “também, com esse corpo, não era para faxina que ela servia não.”.Não estava a olhar para ela com desejo nenhum padre - tentou desculpar-se mais uma vez - mas como tínhamos sido amigas de infância eu queria saber mais da vida dela. Logo nesse dia ela convidou-me para visitar a casa onde morava. Como eu tinha muito que fazer, peguei no endereço e combinamos encontrar-nos no dia seguinte para tomar um café com bolo. Tínhamos tanto o que conversar!Pela conversa, o padre já desconfiava onde aquilo ia parar.- No outro dia arranjei-me e fui. Parei diante da casa dela e fiquei pasmada, era uma casa enorme, até tinha escravo. Bati à porta e uma negrinha atendeu-me, disse que a senhora me esperava na sala e eu fui entrando.Realmente a casa era linda, os móveis, tudo de muito rico. Encontrei Quitéria sentada numa poltrona muito bonita. Ela levantou-se, veio até mim, trocamos cumprimentos e sentamo-nos para pôr a conversa em dia.Quanta coisa tinha acontecido desde que tínhamos deixado de nos vermos! Fomos falando, falando, nem vimos as horas a passar, mas não entramos em nenhum detalhe pessoal das nossas vidas. Tomamos café com um bolo de fubá delicioso que ela me disse ser receita da mãe. Falei das minhas costuras, perguntei por que é que nunca tinha ido lá para eu costurar para ela, disse-me que era por causa do preconceito, mesmo tendo dinheiro continuava a ser negra.Eu nunca a vi assim. Falamos de tudo e de nada. Foi ficando tarde e combinamos fazer isso sempre. Eu achei ótimo, teria alguém para conversar, e acredito que esse também tenha sido o motivo dela. Despedimo-nos e fui embora, estava mais feliz do que nos outros dias. Até o Francisco notou, eu contei-lhe o que tinha acontecido, mais uma vez ele achou bom e não disse uma palavra.O padre ficou curioso com a indiferença daquele homem, e perguntou:- Felipa, ele nunca tocou no assunto da Elise? Nunca perguntou-te absolutamente nada?- Eu vou dizer-te uma coisa mas não anote, nem o nome da Quitéria, por favor. Eu acredito que ele devia de ter uma certa tara nessas coisas, mas nunca me disse nada nem pediu nada de anormal. Quantas noites dormi na casa da Lise, chegava a casa e ele apenas perguntava se eu tinha dormido bem, o que tínhamos feito, se nos tínhamos divertido. E eu respondia tudo no maior respeito, nunca lhe contei particularidades, acho que ele gostava de imaginar. Não posso pensar outra coisa, ou posso?- Eu não sei minha filha, mas que realmente a atitude dele era estranha, isso era.A curiosidade de Felipa fez com que a curiosidade do padre também se aguçasse, quando ela perguntou:- Por que é que o senhor, como padre, não vai lá e lhe pergunta, assim como quem não quer nada?- Vou pensar Felipa, vou pensar.- Continuando, passei a visitar Quitéria quase todas as tardes. Fomo-nos tornando grandes amigas, ela até me apresentou ao coronel dela que, Deus me livre, era feio, mas tinha-lhe dado o que eu nunca tinha tido na vida, liberdade. Começamos a ficar íntimas e passamos a falar das nossas vidas. Eu não criava coragem de contar sobre a Elise, sabia que não era uma coisa normal para se ouvir. Contava as minhas tristezas da vida de casada, ela contava como o coronel era bom para ela, apesar de na cama ser de pouca valia, porém não tinha importância porque ele era rápido.Um dia ela pediu-me para pernoitar na casa dela. Corri a casa, avisei o meu marido que ia passar a noite lá, dei o endereço e ele só me disse isto - Vai lá, minha filha, estás a precisar de te animar um pouquinho. Padre, aquilo não era o mesmo que dizer para eu me deitar com ela? Fiz uma maleta com as minhas coisas pessoais, o senhor sabe, coisas de mulher, camisola, escova, fui direta para a casa dela.Cheguei e ela mostrou-me um quarto lindo, disse que eu iria dormir ali. Descemos e fomos jantar, comida boa, bem feita, até tinha vinho, não era do meu costume beber, mas tomei umas tacinhas. Conversa vai, conversa vem, ela perguntou-me na cara - Felipa, tiveste um caso de amor com a Elise? - Quase caí da cadeira, como é que ela podia saber daquilo? Não sabia o que responder, nem foi preciso, porque ela continuou - Existem coisas que os escravos não guardam para si, a escrava dela contou à minha, que me contou assim, eu fiquei a saber. - Eu estava pasmada, de queixo caído, com certeza. Não conseguia dizer nada. Acho que por causa do vinho a língua destravou, contei tudo, tudinho.Conforme eu ia contando ela ia-se chegando para perto de mim, a carne é fraca, a Quitéria linda, cheirosa, ali na minha frente... Deve ter sido o vinho, cheguei perto dela e beijei-a, pensei que ela me ia empurrar para bem longe, que nada, ela é que me puxou mais para perto. O senhor sabe, carne fraca, desejo forte, Quitéria daquele dia em diante passou a ser a minha amante, não havia amor não, era mesmo desejo, puro desejo.Pedro já imaginava a trajetória da conversa, por isso não se assustou, apenas ouvia e anotava.- Quando o coronel vinha eu aparecia, no almoço ou no jantar. Nestas semanas que ele passava com ela, nós quase morríamos de vontade, mas era o preço que ela tinha que pagar, senão ele podia até matar a pobre. Mal o homem pegava o rumo de Ilhéus, nós duas já estávamos de novo juntas. E eu pergunto ao senhor, acha que o Francisco não sabia? Sabia e nada, nadica. Como éramos quentes, padre! Eu nem podia sonhar que ela gostava daquilo.Uma vez estávamos a descansar na cama e começamos a conversar. Ela contou-me que desde criança já tinha isso com ela, esse desejo por mulheres, mas sabia muito bem que mulher nenhuma a poderia tirar da vida de escrava. Tinha aprendido as técnicas do amor com uma negra, era a mais esperta e sabida do assunto em toda a cidade de Salvador. Contou que a mulher ensinava de tudo, o senhor nem queira saber, nem vou contar senão o senhor é capaz de cair redondo no chão. Não havia nenhum homem que fizesse o papel de homem, não, era a própria professora que ensinava, não podia tirar a virgindade à negrinha, ela é que colocava as mãos onde devia.A Quitéria contou-me que quando conheceu o coronel era escrava de uma família, e que a velha que era dona dela, de burra não tinha nada, sabendo que não tinha muito tempo de vida, aproveitou o que Quitéria podia render, e vendeu-a para a família mais rica de Salvador. Ela era escrava de casa, sempre assim foi de servir.Num determinado dia, a dona vestiu os escravos todos empoados, disse-lhes que receberiam uma visita muito importante de Ilhéus. Na altura, Quitéria nem se apercebeu que ia ser a chance da vida dela. A família chegou para jantar, foi aquele banquete. Quitéria, por ser a mais bem apessoada, foi escolhida para levar os pratos à mesa. E foi fazendo o serviço direitinho, nem reparou o olhar faminto com que o homem olhava para ela. Acabado o jantar, conversa acabada, eles iam pernoitar na casa. Quitéria arrumou a cozinha e foi para o quartinho dela. Quando entrou, quem é que estava lá à sua espera? O coronel! O homem prometeu mundos e fundos para poder trepar com a negrinha, naquela hora disse-me ela que lhe vieram à cabeça as lições da mulher, e colocou-as em prática. Depois daquilo, ele comprou-a à família, muito a contra gosto da patroa, mas o dinheiro era muito, não dava para recusar. Montou-lhe a casa do jeitinho que ela quis, ela tem uma carta de liberdade e vive desse modo.O padre já estava cansado de ouvir essas histórias dos coronéis, e sabia muito bem que isso era aceite como normal.- Nós vivemos do puro desejo carnal, padre, Lise era o meu amor, mas o meu corpo era de Quitéria. Vivemos assim durante meses, até o coronel ter que mudar-se para o Recife. Ele não ia deixar Quitéria em Salvador, foi dolorosa a nossa separação, mas, como sabíamos que não era amor, foi mais fácil dizer adeus. Isso tinha se passado quase quatro anos depois da partida de Lise. Para ser mais precisa, três anos e cinco meses. Nós despedimo-nos com uma noite de amor, não, amor não, sexo, inesquecível. Aquela mulher satisfazia qualquer pessoa, fosse homem, fosse mulher.O padre já nem se chocava, as coisas entravam pelo seu ouvido como se fosse um conto fantasioso. Fez todas as anotações, omitindo apenas o que Felipa pediu.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-6267084177171308231?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/6267084177171308231/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=6267084177171308231' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6267084177171308231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6267084177171308231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xiii.html' title='CAPÍTULO XIII'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-7262039732445382056</id><published>2007-09-20T05:09:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:09:56.437-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XIV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Com a ida dos judeus para Lisboa, os ânimos na cidade estavam mais tranqüilos. Não se esperava que a Inquisição fizesse outra demonstração daquela barbárie, as pessoas estavam mais relaxadas, não sem medo, porém mais calmas, mesmo que a desconfiança ainda fosse uma atitude adotada pelo povo.Felipa tinha engordado um pouco, a primeira vez em que ela e o padre se viram ela mais parecia uma morta viva.O bispo continuava pressionando o padre para que as coisas andassem mais rápidas, e o padre, por outro lado, dizia que a mulher estava conseguindo se soltar agora. Todos num jogo de adiar ou apressar o tempo. Num domingo, para total surpresa de padre Pedro, ele recebeu uma visita: Fulana, mãe de Felipa.A mulher estava vestida distintamente, acompanhada de quem Pedro supunha ser o capitão.Apesar da idade ainda possuía a beleza que imaginara através dos relatos de Felipa, os cabelos presos ainda negros, magra e de baixa estatura. Se pudesse ver Felipa naquela idade, seria muito semelhante àquela mulher.O capitão também era o homem descrito pela prisioneira, só de bater os olhos talvez soubesse quem era, realmente era uma figura sem igual, pelo tamanho e pelo impacto que causava a aparência autoritária. Seus olhos, porém, não demonstravam mais essa autoridade, estavam mais suaves, apesar do estranho olhar.Os dois atravessaram a Igreja e perguntaram por padre Pedro. Chamado pelo um seminarista que atendeu o casal, ele se achegou até eles.- Pois não - disse - em que posso lhes ser útil?O casal perguntou se poderia conversar em particular e esperou a resposta afirmativa do padre. Saíram da Igreja em direção à rua do Comércio, que aos domingos ficava praticamente vazia. Não havia lugar para sentarem. Foi quando o capitão sugeriu que fossem até às pedras perto do mar, onde poderiam se manter afastados e conversar com toda privacidade.Pedro esperava pelas indagações de Fulana com uma certa ansiedade, o que não tardou a acontecer.- Sei que a minha filha está sendo acusada pela Santa Inquisição. Por qual pecado, padre?- Não sei se lhe convém saber, está presa aguardando julgamento.- O senhor tem ido visitá-la, ficamos a saber - afirmou.Surpreso, o padre perguntou-se quem teria contado tal coisa à mãe de Felipa.- Sim senhora, tenho ouvido a sua confissão.- Então é realmente verdade? Ela é culpada?Sem saber o que dizer, preferiu contar a verdade.- Sim, senhora, é verdade, as acusações são verdadeiras.- Quais acusações, padre? Pelo que ouvi não pude acreditar, confirme. O senhor está a dizer que ela confessa, então o que dizem é verdade? Confirmou essa história absurda? - perguntou a mulher, indignada.- Sim, confirmou, está a fazer o seu ato confessional. A senhora gostaria que eu falasse com as autoridades para que pudesse visitá-la?A reação da mãe de Felipa foi totalmente inesperada, ele não estava preparado para o que ouviu.- Padre sinto informá-lo, já não tenho filha nenhuma a partir de hoje. Como pode sugerir-me um absurdo desses? Visitar uma mulher que se enrosca com outras da sua laia! Pecadora, impura, merece a paga pelo erro que cometeu.Totalmente aturdido, Pedro olhou para aquela mulher e disse:- A sua filha ama-a desesperadamente, assim como ao senhor capitão, ela inclusive contou-me a história do vosso amor com aceitação e carinho.- Não me venha com sermões, padre, sou casada legalmente e jamais fiz algo de que me pudesse envergonhar, ou mesmo a ela - dizia em tom exaltado.A vontade de Pedro era esbofetear aquela mulher, mas não parou:- Ela contou-me, inclusive, dos encontros furtivos entre a senhora e o capitão.A mulher, irada, respondeu:- Além de se meter com mulheres como um homem, a maldita é mentirosa!!!- Não admito que fale assim da sua filha, ela não mentiu, ela viu a senhora encontrar-se com o capitão na casa dele em Salvador, ela seguiu-a, descreveu-a como sendo a cena mais linda de amor que já tinha visto. Mesmo que fosse casada!!! - frisou o padre.A fisionomia dos dois mudou completamente, como crianças pegas em uma traquinagem, só que com a culpa vergonhosa nos olhos. O padre prosseguiu:- Desculpe-me a verdade, acredito que Felipa seguiu o seu exemplo, foi isso que ela me disse. Que durante anos a senhora esperou que esse homem voltasse do mar, que só foi embora com ele depois de ela estar casada, não muito tempo depois. Disse também que foi através dos seus olhos que ganhou coragem para assumir, mesmo em confissão, o que sentiu pela mulher que amou. Então, minha cara senhora, se não tem nenhuma filha, lembre-se de que o seu exemplo serviu para alguém. Mesmo que hoje a despreze.Levantou-se das pedras, parou à frente do casal disse:- Esperava muito mais de uma pessoa em quem a filha deposita tão grande amor. E, se me derem licença, tenho horário marcado para falar com ela.Virou-se e foi-se afastando do local.Pediu perdão a Deus, prometeu não comentar a visita da mãe de Felipa com ninguém.Ouviu um fraco gemido:- Espere, por favor.Com a fisionomia dura, ele voltou-se.- Ela disse-lhe tudo isso? Sobre o que aconteceu comigo e Albuquerque?De onde estava, respondeu:- Como é que eu poderia saber disso, minha senhora? Que fonte poderia dar-me essa informação, senão a sua filha?E completou:- Estou atrasado, deseja mais alguma coisa?A mulher, muda, olhava para o marido sem conseguir dizer mais uma palavra sequer. O capitão disse com o tom de voz que Felipa definira tão bem.- Não lhe diga que viemos aqui, somente isto, padre. E, por favor, perdoe-nos.Sem se conter, Pedro retrucou:- É melhor que peçam perdão a Deus pelo que estão a fazer com a sua filha. Passem bem.Deixando os dois nas pedras, dirigiu-se à igreja para buscar o seu material e ir ao encontro de Felipa. Aquele segredo ficaria guardado no peito, jamais contaria a ela o ocorrido.O fato não lhe saía da cabeça, sentia um enorme rancor, precisava orar antes de se encontrar com Felipa, precisava perdoar antes de sentar-se ao lado dela para que pudesse ouvi-la sem demostrar o que estava sentindo naquele momento.Decidiu que o melhor a fazer seria passar o dia em oração e pedir que ela fosse avisada de que estava passando mal, o que não era de todo mentira.Felipa recebeu a notícia com apreensão, nunca tinha ouvido o padre reclamar do quer que fosse. Estranhou, não desejando que isso pudesse passar de apenas um simples mal estar.Pedro orava e ainda tentava entender o que havia acontecido. A raiva que a princípio sentira não estava mais em seu peito. Como ainda ardia o sol, decidiu que resolveria os problemas pendentes de Felipa naquele dia. Francisco -, pensou, iria vê-lo.Saiu de seus aposentos e dirigiu-se à padaria. Ao chegar, reconheceu que o homem trabalhando atrás do balcão era Francisco.Dirigiu-lhe uma pergunta:- Por favor, poderia trocar dois dedos de prosa com o senhor?O homem pára o serviço, olha o padre, pede a bênção e responde afirmativamente.Seguiram para a casa que se localizava ao lado.Ao entrarem, Pedro quase pode sentir a presença de Felipa, tamanha era a arrumação do local.Sentaram-se, e Francisco pergunta ao padre:- Como vai, padre, em que posso servi-lo?- Não é por mim que aqui estou, vim por causa da Felipa, espero que o senhor entenda o motivo da minha visita.- Diga, pois estou a ficar apreensivo.- Tenho conversado muito com a Felipa, isso não é novidade para o senhor. Nas nossas conversas ela demonstra-lhe muito apreço e afeição, e pediu-me que viesse aqui fazer-lhe uma pergunta. Como sou padre, o senhor pode ficar tranqüilo, agiremos como se estivéssemos numa confissão.- Sim, senhor, pode fazer as perguntas que Felipa quer.- Ela pediu-me para lhe perguntar por quê!Como se não entendesse, diz:- O quê? Por quê? Por que o quê, padre?- Por quê, sabendo que o comportamento dela era como era, o senhor agiu como se nada estivesse a acontecer?- Padre, veja bem, sou um homem velho. Quando me casei com a Felipa tinha a cabeça cheia de sonhos, queria filhos tanto quanto ela, mas eles não vieram. Com o tempo já não a procurava como marido, embora soubesse que Felipa apreciava a nossa intimidade e sentia falta disso. Eu sabia padre. O que é que eu podia fazer? Nada. Já não era um homem completo para a Felipa. Vi a amizade dela com Elise como uma distração, acredite, estavam-se divertindo, eu via. No dia em que me contou o que estava a acontecer entre as duas eu já sabia, padre, sentia no ar. O que é que eu podia fazer? Era melhor que a vissem o tempo todo com uma mulher, mesmo que eu soubesse o que havia entre elas, do que fazer papel de corno. Diga-me, quem poderia supor alguma coisa entre as duas? Eram amigas!O padre mal podia crer no que estava ouvindo. Orgulho, o homem ignorou por orgulho!- Sabe que eu até achava engraçadinho as duas a comportarem-se como namoradas?- O senhor percebe que, se tivesse tomado uma atitude, talvez ela não estivesse na situação em que se encontra hoje?- Se eu tivesse feito qualquer coisa, padre, ela arranjaria um homem. Eu não podia prever que o que está a acontecer hoje iria acontecer. Se ela arranjasse outro homem, padre, eu seria corno.- Mas o senhor também está a sofrer com esta situação toda, o falatório, os olhares, até se vai embora daqui.- Eu não estou a sofrer com isso, as pessoas olham-me e dizem “lá vai o coitado do Francisco, coitadinho, foi um bom marido para a outra e olha a paga que recebeu”. Fazem-me vítima, padre, não corno. E vou-me embora daqui não por causa do que a Felipa está a passar, mas porque arranjei uma escrava com quem me amasiei. Apesar de não poder fazer grandes coisas com ela, ela vai-me tratar como eu quero o resto da minha vida, saio daqui e vou para Ilhéus. Achou que eu ia para me esconder pela culpa dela? Não, a rapariga com quem vivo trata-me muito bem. Nada de carta de liberdade, não, esta vai ficar atrelada a mim até ao dia da minha morte. Sinto pelo destino dela, não fui eu que empurrei as duas para a cama.Nem ânimo para qualquer argumentação o padre teve. Achou que por um dia bastava! Não queria mais ouvir nada de ninguém, realmente agora entendia a tamanha solidão que aquela mulher deveria ter sentido ao lado desse homem.Agradeceu por tê-lo recebido, despediu-se e se foi, partindo direto para o único lugar que gostaria de estar agora: seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-7262039732445382056?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/7262039732445382056/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=7262039732445382056' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7262039732445382056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7262039732445382056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xiv.html' title='CAPÍTULO XIV'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-7756856362036358002</id><published>2007-09-20T05:08:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:08:28.445-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XV</title><content type='html'>Aquele dia foi particularmente difícil para Felipa. Já se acostumara com a presença de Pedro e passou o seu tempo em silêncio, embora muito tenha lhe valido aquele tempo para pensar.Analisou toda a conversa com o padre, tudo o que sucedeu durante sua prisão e depois dela. Estava consciente de que pela primeira vez realmente assumira sua posição em relação à sua vida sexual e amorosa.Até então, não tinha ficado claro para ela que aprendera a amar, de preferência mulheres. Desde sua experiência com Lise, que havia sido diferente das demais por envolver um sentimento puro e verdadeiro, sentia-se muito mais atraída por pessoas do mesmo sexo. Chegar a essa conclusão foi expurgar o que estava guardado como uma caixa de pandora.Pensou em toda moralidade da época, em como teria sido difícil ouvir sua acusação em público, lembrou das mulheres que freqüentavam seu ateliê de costura, imaginou o que deveria estar passando na cabeça de cada uma, o horror que deveriam estar sentido ao lembrar que ela havia tocado em seus corpos. Evidentemente entendia o que podiam estar sentindo, e o mais provável é que se sentissem enganadas de forma indescritível.Nunca confundira o que fazia com o que sentia, afinal só tinha havido uma única pessoa cujo envolvimento começara naquele quartinho de costura. Nenhum outro relacionamento depois de Elise havia começado através de seus serviços de costureira.Fosse como fosse, aprendeu a aceitar seu jeito de amar ali nas conversas com Pedro.Amanheceu com Felipa ainda perdida em seus devaneios, esperando padre Pedro chegar.Não tardou muito e já estavam sentados para continuar o que devia ser terminado.Pedro, porém, mostrava-se muito mais amável com ela, como se a afeição que sentisse precisasse ser demonstrada, o que para ela foi aceito com imenso prazer, pois já se afeiçoara a ele há muito tempo.Sentados cada qual em seu lugar começaram a “confissão” do dia, Felipa falando e Pedro anotando o que ela permitia.- Paramos fim do meu caso com Quitéria. Vou contar agora o que se passou no ano anterior ao que conheci Paula, que me delatou. Com a partida da minha querida amiga voltei aos meus afazeres, o que, aliás nunca deixei de fazer. A vida corria sem novidades, costurava, cuidava da casa, nunca as minhas obrigações foram colocadas em segundo plano. O tempo passava, e nada nesta terra de meu Deus mudava, até que um dia recebi um recado de Quitéria para que fosse passar um tempo com ela no Recife, onde estava a morar depois da mudança.Animada com a viagem, perguntei ao meu marido se haveria condições de fazê-la, pois apesar de ganhar o meu próprio dinheiro, ele ia para as despesas da casa. Para minha alegria ele concordou, deixou-me passar quinze dias com ela. Fiquei na maior alegria, só precisava de programar o dia certo, pois ela me mandaria buscar. Isso aliviou-me muito, o senhor sabe que uma mulher decente não viaja sozinha. Estava com saudades da minha negrinha, fazia meses que não a via, seria bom para nós duas.A conversa fluía fácil, parecia que já estava em harmonia com relação aos preconceitos.- Quase um mês depois um dos seus escravos estava à minha espera à porta de casa. Despedi-me do Francisco e segui viagem. Já sonhava com o nosso reencontro, estava feliz e animada por conhecer outro lugar que não fosse aquele em que passei quase que a minha vida toda. A viagem foi relativamente tranqüila, mas como era cansativa, nem contei quantas paragens tivemos que fazer. O fato é que cheguei à nova casa de Quitéria cheia de saudades.A casa era muito mais bonita que a de Salvador, muito maior, com muito mais escravos. Devo dizer bem a verdade, padre, até me intimidei. Ela recebeu-me muito feliz, mas sem intimidade nenhuma. O negrinho levou a minha bagagem para o meu quarto e nós duas passamos horas a conversar. Era bom falar com ela novamente, aquilo revigorava-me, mas precisava descansar um pouco da viagem e fui para o meu quarto.Dormi nem sei dizer quanto tempo, foram-me chamar para o jantar. Quando me arranjei e desci, qual não foi a minha surpresa ao ver que não estávamos sós, havia mais três convidadas. Educadamente Quitéria apresentou-me as mulheres que compartilhariam conosco a refeição, todas do Recife, uma mais bonita que a outra, todas brancas. Foi muito agradável a conversa, percebia-se que eram mulheres diferentes, letradas, que falavam qualquer assunto, mesmo os assuntos de homens.Assim passamos a noite. De repente ela puxa-me para um canto e diz - Felipa, uma delas está interessada ti e quer conhecer-te melhor. - Arregalei os olhos, padre, nem imaginava que aquelas mulheres tão distintas e educadas gostavam do que eu e Quitéria gostávamos. Não vou dizer que não gostei do que ouvi, afinal estava na carência da carne, e a bendita é fraca, como já disse ao senhor várias vezes.O padre ouvia e custava-lhe a crer que realmente existia um número maior de mulheres que se entregavam ao amor de outras mulheres do que ele supunha existir, ainda mais em situações como aquela.- Olhei bem para a mulher, que não era tão bonita mas tinha os seus atrativos, pensei “já que estou na chuva, deixe que me molhe”, e aceitei. Acabada a conversa, Duartina, era esse o seu nome, aproximou-se e foi-me levando até ao meu quarto. Sabia que isso tinha sido muito bem montado por Quitéria. O que interessa é que passamos a noite juntas, e mais o restante do tempo que fiquei no Recife. Foi um caso, mas valeu muito, pois aquela mulher ensinou-me coisas da vida que eu desconhecia. Falou-me de tantas coisas, nem sei de onde vinha tanto disparate na cabeça da coitadinha, mas era muito viajada, e falou-me de outras terras, outros países.Naqueles dias não fiquei uma noite sequer com a minha negrinha, bem que senti uma falta danada. Chegou o dia da minha partida para Salvador e eu estava triste por não ter tido um momento com ela. Não posso dizer que não aproveitei o meu tempo lá, passeei e conheci a cidade, muito bonita, por sinal.Depois de arrumadas as minhas coisas foram-me buscar, e na partida, ela aproximou-se de mim e disse - Vou-te convidar mais vezes - e eu respondi - Só se puderes ficar comigo pelo menos uma noite.Deu-me um beijo e voltei para Salvador.O que realmente o padre não entendia era o forte apelo que a carne exercia sobre aquela mulher.Despediram-se e o padre foi-se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-7756856362036358002?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/7756856362036358002/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=7756856362036358002' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7756856362036358002'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7756856362036358002'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xv.html' title='CAPÍTULO XV'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-7948537528497106574</id><published>2007-09-20T05:06:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:07:27.425-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XVI</title><content type='html'>Após sair da prisão padre Pedro foi caminhando, imerso em suas reflexões a respeito da conversa com Felipa. Ele realmente sentia no coração que não a condenava, condenava apenas seus pecados, e desses ele sabia que infelizmente ela não teria como se livrar perante o Tribunal da Inquisição. Tinha conhecimento de que, se lhe deram mais tempo, não foi para que houvesse algum benefício em seu favor, mas sim para que denunciasse outras mulheres que tinham a mesma preferência sexual que a dela.O processo contra Felipa estava completo, ela havia sido denunciada, havia provas comprometedoras. Nada a salvaria da punição que a ela seria imputada.Tinha se afeiçoado àquela mulher, mas infelizmente sabia seu fim.Ao cruzar as portas da igreja da Fé, um seminarista veio ao seu encontro com um recado:- Padre, o bispo tem urgência em lhe falar, ele aguarda-o.Pedro sai pensativo e preocupado, pois o bispo não era de mandar recados, e muito menos solicitar a presença de alguém daquela maneira. Ele não costumava esperar por nada nem por ninguém, muito menos por um simples padre.Padre Pedro chega à porta do aposento e bate, aguardando a resposta. Ouve a voz possante do bispo:- Entre de uma vez!Percebe-se que está sem nenhuma paciência.Conforme Pedro ia entrando, o bispo ia falando, de maneira irritada:- Como é, aquela praticante do roçadinho já entregou mais algum nome?Pego de surpresa por aquele vocabulário chulo novamente, o padre Pedro responde:- Não, Eminência, não disse um nome sequer, ela confessa a sua prática, mas não cita nenhum nome.O bispo exaspera-se e dá um soco na mesa:- Como não??? Não pediste tempo, pois acreditavas que ela o faria em poucos dias? O que tens anotado tanto em tanto tempo? Nós não temos mais tempo!!! Recebi uma carta do Frei Bento Dias a marcar para daqui a dois dias o interrogatório dessa infeliz com um dos inquisidores nomeados! O seu tempo acabou, assim como a minha paciência!!!Aturdido com a notícia, Pedro pede, num ato de extrema ousadia:- Dois dias? Por favor, Eminência conceda-me esses dois dias que me restam, quem sabe posso fazer alguma coisa, é tudo o que lhe peço, somente esses dois dias.Sem acreditar na coragem do padre em lhe dirigir a palavra daquela maneira, ele retruca:- Queres mais dois dias? Responda-me, Padre, que queres com aquela doente? Sabes mais do que eu que ela é culpada, por acaso achas que em dois dias ela te entregaria pelo menos um nome?- Não sei, Eminência, não posso afirmar-lhe, só peço que me conceda esses dias para que possa dar fim à confissão que ela começou.- E achas que alguma confissão a livrará da ira de Deus e do seu destino?- Não, Eminência, apenas gostaria de terminar o que comecei. A mim foi confiada uma missão, nada sabia a respeito do prazo, mas em dois dias, com certeza, termino a confissão de Felipa de Souza.- Bem se vê que és novato! Em que isso te pode ajudar a ganhar um lugar mais alto no ministério? Achas, por acaso, que vão contabilizar as horas que passaste a escutar criminosos e dando ouvidos a hereges? Não abuses da minha paciência!- Eu rogo-lhe por esses dois dias, nada mais lhe pedirei quanto a este assunto.O bispo não responde, abre uma gaveta e dela retira uma carta:- Vê, aqui está! Dois dias... dois dias! Não me peças nem mais um minuto, já sabes de antemão a resposta. Agora, sai daqui.O contentamento do padre é aparente, e ele sai do aposento agradecendo:- Obrigado, Eminência, que Deus o abençoe... que Deus o abençoe!!Apesar de se sentir apreensivo, sabia que poderia contar com mais dois dias. Precisava contar a Felipa, Deus!!! Pensou no seu interrogatório com o inquisidor, sabia como as coisas aconteciam, só não sabia se ela suportaria. Conhecia os métodos usados e isso não era segredo para ninguém, afinal toda a orientação estava escrita no Manual do Inquisidor, e quantas vezes ele próprio não o havia lido!Lembrava-se, palavra por palavra, do que estava escrito sobre o interrogatório. Poderia até dizer de cor, e repetiu, provavelmente para si mesmo e antecipando o que Felipa sofreria:“O réu indiciado que não confessar durante o interrogatório, ou que não confessar, apesar da evidência dos fatos e de depoimentos idôneos; a pessoa sobre a qual não pesarem indícios suficientemente claros para que se possa exigir a abjuração, mas que vacila nas respostas, deve ir para a tortura. Igualmente, a pessoa contra quem houver indícios suficientes para se exigir a abjuração.”O veredicto da tortura é assim:“Nós, inquisidor tal e tal..., considerando o processo que instauramos contra ti, considerando que vacilas nas respostas e que há contra ti indícios suficientes para levar-te à tortura; para que a verdade saia da tua própria boca e para que não ofendas muito os ouvidos dos juizes, declaramos, julgamos e decidimos que tal dia, a tal hora, será levado à tortura.”Finalmente, quando se pode dizer que alguém foi “suficientemente torturado”? Quando parecer aos juizes e especialistas que o réu passou, sem confessar, por torturas de uma gravidade comparável à gravidade dos indícios. Entenderão, portanto, que expiou suficientemente os indícios através da tortura (ut ergo intelligatur quando per torturam indicia sint purgata).Como o réu confirma a confissão efetuada sob tortura? O escrivão pergunta-lhe depois da tortura: “Lembras-te do que confessaste ontem ou anteontem sob tortura? Então, repete tudo agora com total liberdade”. E registra a resposta. Se o réu não confirmar é porque não se lembrou, e então é novamente submetido à tortura.Como não antever o sofrimento que estava por vir, mas nada lhe diria sobre isso, apenas falaria a respeito dos dias que lhe restavam...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-7948537528497106574?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/7948537528497106574/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=7948537528497106574' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7948537528497106574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/7948537528497106574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xvi.html' title='CAPÍTULO XVI'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-3071980621616196537</id><published>2007-09-20T05:05:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:05:31.026-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XVII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No momento em que padre Pedro tomou ciência da decisão dos seus superiores viu que lhes restava pouco tempo, e não sabia o quanto seria necessário para que Felipa acabasse de se confessar. Ainda tinha esperança de que ela se arrependesse.Dirigiu-se rapidamente para a prisão, teria que contar o que estava acontecendo. Quanto tempo teriam ainda para poder terminar o que haviam começado?Ao chegar cumprimentou-a e foi despejando a triste notícia:- Teremos apenas mais dois dias, Felipa, o seu inquisidor já se encontra em Salvador.Ela sabia que ouviria essa triste notícia mais cedo ou mais tarde. Resignada, disse:- Estou com medo, padre! Muito medo, sei que me vão bater, sei que vão fazer horrores comigo, tenho medo!!!O padre sabia a aflição que a mulher sentia, mas estava para além das suas forças mudar o seu destino. Perguntou:- Quer continuar com a sua confissão?Felipa foi incisiva:- Claro!!! Quero que tudo fique bem documentado para as pessoas que quiserem ler, e sei que curiosos são o que não vai faltar.O padre lembrou-lhe:- Filha, esta confissão não vai a público, é do poder da Igreja. Apenas se você fizer um ato de confissão perante o público, pedindo perdão pelos seus pecados, é que saberão a sua verdade.- Já disse ao senhor, não me arrependo, morro sem abrir a boca, mas não me arrependo de ser o que sou e de ter amado quem amei: Lise. Que seja da maneira que a Igreja manda, mas isso ficará registrado para sempre, não é verdade?- Nos tribunais, sim, para sempre.- Então que a minha história fique lá para sempre. Quero continuar, podemos?- Claro - afirmou o padre.- Depois que cheguei do Recife, a minha vida voltou à rotina de sempre. Passei a trabalhar mais para preencher o vazio que sentia, cheguei a passar noites em claro terminando o meu serviço. E a vida seguiu na sua toada. Eu com Francisco, ele sempre chocho, nós quase nem nos falávamos, mas era mesmo por falta de assunto.Certo dia eu tinha uma entrega para fazer não muito longe de casa. Embrulhei o vestido e dirigi-me à casa de Anita, a minha cliente. Bati à porta e uma mulher atendeu, fato que estranhei, porque Anita tinha uma negrinha para fazer o serviço, e quem abriu a porta não tinha nada de negrinha. Era uma linda mulher, mas eu nem quis prestar muita atenção para não atiçar a carne. Muito falante e simpática perguntou quem eu era, expliquei que só passara por ali para entregar uma encomenda de costura. Queria que eu entrasse, mas eu não, entrar não, nem a Anita me tinha convidado para isso e nem era esse o motivo de eu estar ali. Agradeci e fui embora sem deixar de pensar naquela mulher. Linda, olhos vivos, alegre, não era mais nova que eu. Tinha quase a minha altura, cabelos pretos iguais aos meus, mas com um brilho que parecia cetim. Ela impressionou-me, e muito. Fui embora sem saber o nome dela.O padre anotava cada palavra que Felipa dizia:- Acho que se passou uma semana, é, uma semana, quando ouço baterem na minha porta. Isso não era comum, ninguém recebia visitas àquela hora, era hora de trabalho. Saí do quarto de costura sacudindo os fiapos de linha da minha roupa e fui atender. Qual não foi a minha surpresa, quem estava lá na porta da minha casa? A tal mulher! Pensei comigo mesma que aquilo não ia acabar bem. Cumprimentei a mulher, e como não estava entendendo o que ela fazia ali, fiquei calada. Ela perguntou - Você não me vai convidar a entrar? Só aí dei conta da falta de educação, e nesse instante pedi que, por favor, entrasse, e desculpei-me explicando que estava meio atordoada. Passou por mim e foi entrando com um jeito gracioso de andar. Eu não queria padre, juro que não, mas ela era tentação pura, e sabia disso.Lembrei-me que não sabia o nome dela, apresentei-me e disse o meu nome, ela respondeu que já sabia, Anita tinha-lhe dito, e apresentou-se dizendo o seu nome - Paula. É... Paula... Era um lindo nome! Ela sentou-se e, desinibida como poucas pessoas que conheci, começou a conversar. Tudo era fácil com ela, tinha capacidade de fazer com que as pessoas rissem e a ouvissem com atenção, ela era especial. Como também sempre falei muito demo-nos bem, mas algo nela era estranho. Ela parecia um anjo, mas havia alguma coisa errada naquele anjo, parecia não ser tão anjo assim. Tornamo-nos amigas, mas eu nunca lhe disse nada a respeito das minhas preferências.Felipa deu alguns passos como que para aliviar a tensão e voltou a falar:- Passamos a encontrar-nos constantemente para tomar chá, comer, conversar, até passear. Um dia, depois de um passeio, fomos para minha casa. Era cedo ainda, e sem mais nem menos Francisco chegou. Ele não costumava voltar cedo, perguntei-lhe se estava tudo bem e ele disse que sim, que só tinha vindo buscar uma coisa que se havia esquecido em casa. Entrou, foi para o quarto dele, pegou o que queria e saiu. Eu virei-me para Paula, para que continuássemos nossa conversa, quando me deparo com uma cara completamente assustada.Sem entender, perguntei-lhe o que houve. Ela virou-se para mim e perguntou: - É casada com esse velho? - Infelizmente tive que responder que sim, pela primeira vez senti vergonha do Francisco.A conversa que se seguiu foi por demais vulgar, não sei se para mim ou para qualquer um que ouvisse. Com a maior naturalidade do mundo ela contou-me que tinha um amante. Ainda bem que estava eu sentada, não esperava ouvir aquilo dela. Mas não parou ali. Disse que ele era um escravo negro, e perguntou: - Sabia que os negros são mais bem dotados que os brancos? - Eu não podia ser moralista, era pedir demais da minha pessoa, mas ouvir assim uma história tão particular de uma pessoa que era minha amiga, nada mais do que uma amiga, assustou-me. Pensas que parou aí? Não parou, continuou: - Não podes imaginar o que é sentir aquele homem dentro de si. - Naquela hora a minha boca escancarou-se, se arrependimento matasse eu teria caído morta ali. E eu disse: - Não gosto de homens. - Ela arregalou os olhos e perguntou - Como assim, não gosta de homens?Felipa remexeu-se, parecia estar desconfortável, mas queria continuar.- Eu disse-lhe que não gostava de fazer sexo com homens, e ela insistia: - Como não? Faz com quem, então? Ou não faz? - Sem perceber, a minha boca falou de novo: - gosto de mulheres. Ela soltou um gritinho e perguntou-me: - O quê? Você faz sexo com mulheres? Mas isso não é possível!!!Padre, eu juro que não queria dizer mais nada, mas ela não parava de falar. Então eu disse: - Para quem sabe e gosta não há nada melhor. - Bastou!!! Ela sentiu-se instigada, tinha uma curiosidade que não era apenas das coisas normais, tinha uma tara por sexo que era anormal. Queria saber tudo, como era, o que sentia, como fazia. Eu não estava acostumada àquilo, nunca havia falado da minha vida íntima a ninguém. Constrangiam-me aquelas perguntas todas. Respondi aquilo que achava que podia responder.A partir daquele dia, a minha vida mudou. Ela queria, ou melhor, ela queria-me, e tentava seduzir-me de todas as maneiras. Eu não queria fazer nada errado, ela era mulher casada com um funcionário do governo, tinha chegado a Salvador há pouco tempo, vinda do Recife, eu não queria, mas o senhor sabe, a carne... O marido passava o dia a trabalhar e ela sempre a chamar-me para ir a casa dela. Eu já sabia porquê, no fundo até gostava, afinal nunca havia acontecido aquilo comigo, estava a ser seduzida e por uma linda e perfeita mulher, perfeita assim pela carne, o senhor entende.Felipa precisava contar as coisas muito rápido, só teriam mais um dia para isso. E despejava! Muitas vezes ficava até difícil para Pedro acompanhá-la na escrita.- Pois, um dia aconteceu, e ela gostou, e muito. Não posso dizer-te que não foi o que eu queria, muito pelo contrário, ali era eu que ensinava como me amar, e ensinei. Mas ela superou a professora, passou a fazer coisas que me deixaram completamente dependente dela sexualmente. Tornei-me um fantoche nas suas mãos. O pior é que eu sabia não ser a única amante dela, ela queria tudo, sem se importar se era homem ou se era mulher. Devo dizer ao senhor, ela sabia o que fazia. Aquilo consumia-me, sabia que não era amor, era vício, o vício de poder tê-la ao meu lado, de tocá-la, eu estava quase enlouquecendo. Sentia ciúme dos seus outros casos, mas ela sabia lidar com os brinquedos que possuía nas mãos.Certo dia ela precisou de acompanhar o marido até ao Recife, onde ficou por mais de um mês. Eu escrevia-lhe cartas expondo-me e contando a falta que ela me fazia, e fazia mesmo, até o Francisco reparou que eu estava fora do normal. Muitas cartas, padre, muitas... Quando ela regressou, passamos momentos de enlouquecer juntas. Eu sabia que tudo estava errado, que não era assim, que aquilo não era amor, era um sentimento quase animal. Eu devia sair de Salvador por uns tempos, precisava disso, e - foi Deus ou não - recebi uma carta de Quitéria chamando-me para visitá-la novamente.Disse à Paula que iria visitar uma amiga ao Recife. Padre, nem queira saber a reação que ela teve, pois sabia do meu caso com Quitéria, eu tinha-lhe contado. Teve um acesso de raiva, ameaçou quebrar tudo que estava à sua frente. Eu insisti que iria, que precisava de ir, tinha que ir, e ela disse que se eu fosse me arrependeria.Eu pensei - como? Tudo o que fizemos foi juntas. Se eu me arrependesse, ela haveria de estar expondo a sua vida, e isto ela não faria. Foi ali que vi o tipo de anjo que era aquela mulher. Paula não parava de ameaçar-me, e aquilo foi ficando desagradável. Eu lembrei-lhe que, se me expusesse, iria para a lama comigo. Ela apenas riu, riu na minha cara e disse: - Felipa, o que é meu é meu para sempre, não é de mais ninguém.Sinceramente, padre, eu não podia levar aquilo a sério. Depois de rompermos, eu soube que ela costumava visitar uma feiticeira, e que a mulher lhe ensinava como manter as pessoas “viciadas” nela. Achei um absurdo, nunca imaginei Paula ligada com essas coisas, mas como ela não era normal, pode até ser verdade.O padre começava a entender como Felipa tinha acabado ali. E ficou pasmo diante da tamanha frieza de Paula. Ele a conhecia das acusações, nunca pensaria aquilo daquela imagem de “anjo” que realmente tinha. Estava chocado.A porta se abriu e o tempo do penúltimo dia estava acabado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-3071980621616196537?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/3071980621616196537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=3071980621616196537' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/3071980621616196537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/3071980621616196537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xvii.html' title='CAPÍTULO XVII'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-6938076489346645707</id><published>2007-09-20T05:03:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:04:10.947-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XVIII</title><content type='html'>A caminho da igreja, o padre pensava em tudo que havia ouvido. Não podia acreditar que tivesse sido daquela maneira. Ele tinha conhecido Paula muito antes de entrar pela primeira vez na cela de Felipa. Na realidade, quando a viu pela primeira vez, achou que ela era realmente tudo o que falavam dela. Claro que a verdade de suas práticas sexuais era real, mas a maneira como ela foi denunciada não era. Não era aquela mulher ardilosa, cheia de artimanhas para levar as mulheres para sua cama, ele tinha certeza de que não era. Hoje sabia quem Felipa era, mas antes tinha acreditado em Paula.Pobre Felipa, suas cartas, somente suas cartas puderam colocá-la onde estava, pois nada mais havia de concreto contra ela que envolvesse outra pessoa. Será que poderia medir a maldade, será que Deus estaria vendo aquilo? Culpada as duas, o pecado era o mesmo, mas uma havia vestido pele de cordeiro. Meu Deus!! Por que Paula não pagaria pelo que também tinha feito? Mas quem? Quem acreditaria em Felipa, exposta da maneira que Paula a expôs, quem?Ao deitar-se, as perguntas ainda lhe confundiam a cabeça, não conseguia dormir. Restava um dia apenas, um dia para que ela pudesse falar e continuar viva. Um dia.Logo que o dia amanheceu o padre se arrumou e partiu para a prisão. Teriam quase o dia todo, não queria perder nem um minuto sequer.Ao entrar na cela viu o pânico instalado em Felipa, mas ela fazia o possível para parecer tranqüila. Ele via que não era assim, mas deixou que ela agisse da maneira que queria, pois haveria uma hora em que o terror viria à tona.Padre Pedro sentou-se, e depois de cumprimentá-la, perguntou:- Pronta?Ela assentiu com a cabeça, e praticamente vomitava as palavras.- Pois , padre, foi assim que vim parar aqui. Desde o momento em que vi Paula sabia que as coisas não poderiam dar certo, só não esperava este fim.Fui para o Recife, como havia planeado, fiquei com Quitéria duas semanas, pude ter a minha negrinha para mim naqueles dias e vi o quanto estivera doente por Paula. Foram bons dias aqueles que passamos juntas. Quitéria reparou que eu não estava bem, conversamos muito sobre o assunto e ela aconselhou-me a afastar-me de Paula, o que já era minha intenção.Quando voltei para Salvador, Paula não me procurou. De fato estranhei, mas sabia que ela havia ficado irada comigo. Então conformei-me, e retomei à minha vida, aliviada por ela não fazer mais parte dos meus pensamentos.Até que um dia, como de costume, estava a costurar e ouvi fortes batidas na porta de casa. Estranhei as batidas constantes. Abri a porta e, a princípio, não entendi bem. Ali estavam militares, bispos e alguns homens que acompanhavam os urubus. Perguntei o que queriam - olhou para o padre como que a explicar-se - eu realmente não fazia a menor idéia do que estava a acontecer. A multidão foi-se ajuntando na frente da minha casa, Francisco saiu da padaria e correu para lá. Um homem começou a ler um papel e eu não conseguia reter o que ele falava, não tinha sentido. Não sabia o que estava a acontecer, de verdade, padre!!!Fui levada de minha casa direta para este buraco onde estou, nem sei há quanto tempo. Só gostaria de lhe pedir um favor, queria escrever uma carta para que o senhor a entregue nas mãos de Lise, posso?O padre, que lhe havia prometido procurar Elise, consentiu. Ela pediu-lhe algo em que pudesse escrever, sentou-se e começou a rabiscar as palavras em absoluto silêncio.Depois de um tempo perdida no papel que seria o seu reencontro com aquela que nunca deixou de amar, perguntou ao padre se ele tinha um envelope. Ele entregou-lhe um, ela dobrou o papel e, mais uma vez, disse-lhe:- Aqui está, Pedro, quero que entregue em mãos a Lise, queria pedir-lhe que... Sinto-me até sem graça, mas gostaria que selasse e não lesse o que lhe escrevi. Se for do consentimento dela, ela deixará que saiba o que consta nesta carta.O homem apenas sorriu e acalmou-a quanto ao sigilo. E perguntou:- Felipa, estás ciente de que amanhã a levarão daqui para o interrogatório? - Ela meneou a cabeça e ele continuou: - Pois bem, quero que saiba que farei o possível para poder participar, farei o que estiver ao meu alcance. O problema é que sei que o meu alcance, perto desses inquisidores, é muito pequeno. Mas mesmo que eu não esteja aqui estarei orando por si, e o meu pensamento estará voltado para o seu o dia todo. Pedirei a Deus que seja Pai e a auxilie a passar pelo interrogatório sem que sofra. Lembre-se, farei o possível!Ela agradeceu apenas com o olhar e jogou-se em seus braços, as lágrimas descendo pelo seu rosto. Não conseguia se soltar daquele que tinha sido tudo seu naquele mês, e que era seu amigo acima de qualquer outra coisa.Aquela foi uma noite diferente para Felipa. Desde sua prisão evitara pensar conscientemente no que tinha acontecido.Começou a vir à sua memória os acontecimentos daquele fatídico dia. Lembrou-se do dia em que chegou à prisão, a primeira imagem que lhe vinha à cabeça era seu primeiro interrogatório, fosse esse ou não o nome do que haviam feito.Estava em uma sala com o que deveria ser um inquisidor, alguns membros da igreja e outros homens bem trajados, e as perguntas começaram assim:- O teu nome?Ela havia dito.- A tua idade; a qualidade do teu sangue; que ofício exercia; onde vivia; natural de onde; moradora de que localidade; quem eram os teus pais; os teus avós, paternos e maternos; se possuía irmãos; se tinha filhos ou netos vivos ou mortos; se era cristã batizada e crismada; onde se tinham dado os fatos; por quem; quem eram os seus padrinhos; se, com o passar dos anos, ainda ia à Igreja; se ouvia as missas; se costumava confessar-se e comungar; e que obras realizava a mais como cristã.Lembrava-se que, após ter respondido a todas essas perguntas, a mandaram ajoelhar e rezar diversas vezes várias orações.Depois continuavam com outras perguntas:- Se sabia ler e escrever; se tinha estudado alguma ciência e, caso positivo, onde; se tinha saído da colônia; por que lugares andou e, nas terras que esteve, com quem esteve; com que pessoas lidava e se comunicava; se já havia sido presa ou penitenciada pelo Santo Ofício, ou se tinha parentes que o foram.Guardavam suspense para a última pergunta: se sabia ou suspeitava por que havia sido presa.Não fazia a menor idéia do que estava fazendo naquela sala, somente podia pensar que era um engano... e respondeu:- Não, senhor, não sei a razão de estar aqui.O homem não demonstrava muita paciência, e Felipa estava aterrorizada.- Quer dizer que nem tens idéia do que fostes acusada e porque estás presa nesta prisão? Nada lhe vem à cabeça? Não fizeste nada de errado perante a Santa Madre Igreja e os seus mandamentos? Pense bem e lembre-se de que estás aqui porque foi acusada, e com provas verídicas contra a tua conduta como cristã. Os teus pecados são do conhecimento do Santo Ofício, nada está oculto aos olhos de Deus.Ela nada respondia, continuava calada, apenas dizia:- Não é do meu conhecimento esta culpa.A sua cabeça estava atordoada com os últimos acontecimentos e de como viera parar naquele lugar.- Eu gostaria de saber do que estou sendo acusada!O homem a olhava com escárnio:- Sabes bem e não confessas. Não tens consciência de que isso só lhe imputa mais problemas? Confesse a sua culpa, isso lhe será o mais útil neste momento. Quanto mais insistir em se manter calada, pior a sua situação perante este tribunal!!- Confesso que não tenho a menor idéia do que estou sendo acusada...Buscava um motivo, se bem que no fundo estava com muito medo de saber a que culpa aquele homem se referia. Mas quem poderia ter dito algo sem estar implicada também?O tempo arrastava-se, e já se iam horas que estavam no mesmo diálogo insuportável.Finalmente, o inquisidor diz-lhe:- Ficarás aqui por um mês, e durante esse período com certeza se lembrará de quais são as suas culpas perante o Santo Ofício, e verás que a sua estadia aqui não será agradável. Quem sabe isso possa clarear a tua mente.Lembrava-se do momento em que foi colocada na cela, o cheiro ruim que lhe trazia à memória o mesmo fedor da caravela. Chorou dias consecutivos, não podia receber ninguém, estava isolada do mundo, as únicas pessoas que ali entravam eram os carcereiros ou os membros da Igreja.Quanto tempo levou para que realmente entendesse que ninguém poderia tirá-la daquela situação! Quantos dias!...Passado um mês, voltou para a sala em que esteve pela primeira vez em que entrara na prisão. Parecia que dessa vez seria um outro inquisidor, e realmente era, mal se lembrava do nome do primeiro, e lá estava o outro.O homem começou a falar com os presentes na sala e tudo ia sendo anotado. Disse que esta seria a segunda sessão da parte do interrogatório da acusada Felipa de Souza. Ela lembrava-se de ter ouvido algo como “in genere”, mas mal sabia se tinha entendido bem, não entendia aquele língua dos padres e inquisidores.E começaram as perguntas novamente:- Neste tempo em que esteve “alojada” aqui lembrou-se dos seus pecados? Consegues admitir a culpa? Nada na sua alma a acusa? Nada fez??? E tudo se repetiu como da primeira vez... Nada!!! Nada!!! Não havia explicação para aquilo na sua cabeça. Sem poder falar com ninguém, não podia crer que o motivo mais provável para estar ali poderia ser a vingança de uma mulher - que, se contasse algo, também se estaria inculpando. Não era possível, não era provável.Como da outra vez, disseram-lhe que haveria uma próxima sessão, e que dariam tempo para que ela refletisse mais uma vez.Foi nesse tempo que o padre passou a vê-la, e as coisas estavam bem claras para ela agora.Sabia que amanhã seria mais uma vez interrogada, não sabia como não lhe encostaram a mão das outras duas vezes. Sofrera, sim, uma tortura mental. Pareciam gotas de água que não paravam de cair, mas não a tocavam. Agora o medo do que poderia acontecer crescia mais e mais.Apenas algumas horas a separavam do próximo interrogatório, não delataria ninguém, não faria isso. Sabia qual era a sua culpa agora, mas não levaria ninguém com ela. Se pudesse, apenas arrastaria Paula.Restavam minutos para que o dia clareasse, ela sabia disso, podia sentir nos ossos, tamanha a aflição em que se encontrava... Medo, era a única sensação, tudo o que sentia se resumia a uma palavra, medo!!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-6938076489346645707?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/6938076489346645707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=6938076489346645707' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6938076489346645707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/6938076489346645707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xviii.html' title='CAPÍTULO XVIII'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-1920816587587721336</id><published>2007-09-20T05:01:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T05:02:57.032-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XIX</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O dia do interrogatório havia chegado. Felipa sentia a tensão de todos os meses se concretizarem em apenas um pequeno espaço temporal.Nada esperava que não fosse relacionado à dor, sabia que teria que falar alguma coisa, mas não sabia exatamente o quê. Não podia negar assumir-se perante os inquisidores, mas nada mais que isso sabia sobre sua acusação.Pensou em outras possibilidades que pudessem justificar ter sua vida exposta que não fosse sua relação com outras mulheres. Sabia que não havia mais nada, pois a única coisa que fizera e da qual Paula poderia acusá-la seria aquilo.Enquanto esperava, pedia forças a Deus para que pudesse suportar com dignidade o que estava por vir.Arriscou até uma oração, mesmo sentindo-se ressentida com a Igreja e seus membros, menos, claro, com padre Pedro, seu amigo e confidente:“Deus, só peço que dê-me forças para que possa agüentar os castigos que me imputarem. Direi que sei por que estou aqui, e realmente sei, mas nada mais eu sei além disso. Sei que, para uma pecadora, estou até tendo muita coragem de chegar diante de Ti e pedir ajuda, mas não consigo considerar-me tão nefasta assim, sei que nada posso fazer agora, mas tenha piedade de mim.”Pedro aguardava impaciente a saída dos inquisidores e outros membros da Igreja que iriam acompanhar o interrogatório. Não tinha conseguido coragem suficiente para se impor como participante, a impaciência do bispo em relação a ele estava evidente e não gostaria de prejudicar ainda mais Felipa.Sabia que as mulheres já não eram bem vistas perante a Santa Inquisição. Lembrava-se da declaração feita por dois inquisidores papais, famosos por ter sido aceita como verdade: “Uma mulher é bonita de se ver, contaminadora ao tacto e mortífera de manter… Um mal necessário, uma tentação natural… Um mal da natureza… Mais frágeis na mente e no corpo e por isso mais afetadas pelos feitiços da bruxaria (do que os homens). Uma mulher é mais carnal do que o homem. Toda a bruxaria advém da luxúria carnal que, na mulher é insaciável.”.Praticamente todas as mulheres acusadas pela Santa Inquisição tiveram um triste fim, e o de Felipa parecia não ser melhor. Dava graças por não ter sido acusada de bruxaria, mas crimes sexuais estavam sendo por demais explorados pela Inquisição. O dela era de extrema gravidade, ele não podia negar que pensava a mesma coisa que os inquisidores com relação ao fato - nem ele, que tinha por ela uma afeição genuína, poderia inocentá-la de sua culpa.Isso era o que mais lhe doía como padre, sabia que, por mais que quisesse, não havia como fugir de fatos. Os fatos estavam ali, ele mais do qualquer outro, sabia disso, ouvira de sua própria boca. Deu graças mais uma vez de não ser um inquisidor, lembrou-se da primeira vez que foi ver Felipa, da vontade que tivera de ser um daqueles que hoje condenava, não por defenderem a Igreja, mas pelos métodos que utilizavam, por terem assumido o papel de Deus na terra, como dissera Felipa um dia.Na prisão, quanto mais os minutos se passavam mais tensa Felipa se sentia. Esperava que a porta se abrisse de uma vez, queria terminar logo com aquela tortura mental. Não suportava mais aquilo.Quase nem ouviu os passos no corredor, tamanha a atenção que prestava nas batidas de seu coração. E assim que escutou se pôs de pé da maneira mais rápida que pôde, ajeitou-se e viu a porta sendo aberta como se levasse horas aquele breve movimento.Esperava uma pequena comitiva, mas apenas um guarda veio buscá-la. Algemou-a e levou-a até a sala em que seria realizada a sessão.Ali estavam dois homens bem trajados, que julgou serem seus inquisidores, além do bispo e de mais outros homens, todos sentados atrás de uma grande mesa. Os dois inquisidores ao centro, o bispo ao lado e os demais espalhados aleatoriamente, era o que lhe parecia.Sua entrada não foi tratada como um fato especial. O guarda que a acompanhava colocou-a diante da mesa, todo seu corpo tremia, mal podia olhar para os homens sem que o pavor lhe assolasse a alma, evitava levantar os olhos.O inquisidor se levanta e passa a declarar aberta a terceira sessão “in specie”.Foi colocado para a acusada a seguinte afirmativa:- Houve contra ti acusações de prática de atos sexuais com pessoas do mesmo sexo, consideras as acusações como verdadeiras, assumes tua culpa?Felipa balança a cabeça afirmativamente.- Não serão consideradas as confirmações que não forem declaradas em alto e bom tom. - disse o homem.- Sim, considero-me culpada.- Estas são as acusações feitas contra ti:“Perante um dos nossos inquisidores, foste acusada pela senhora Paula de Siqueira, 40 anos, cristã velha, que terá mais ou menos dois anos, pouco mais pouco menos, a senhora, moradora nesta cidade, casada com Francisco Pires, padeiro, junto de Nossa Senhora da Ajuda, começou a escrever muitas cartas de amores e requebros, de maneira que ela confessante entendeu que a dita Felipa de Souza tinha alguma ruim intenção... E com estas cartas e semelhantes recados e presentes continuou com ela por espaço de dois anos pouco mais ou menos, dando-lhe alguns abraços e alguns beijos, sem lhe descobrir claramente o seu fim e propósito, até que num dia, domingo ou santo, haverá um ano pouco mais ou menos, estando ela confessante em sua casa nesta cidade, veio a ela a dita Felipa de Souza... Então, ambas tiveram ajuntamento carnal uma com a outra por diante e ajuntando seus vasos naturais um com o outro, tendo deleitação e consumando com efeito o cumprimento natural de ambas as partes como se propriamente foram homem com mulher... Diante da confissão da senhora Paula de Siqueira, uma série de pouco mais pouco menos vinte mulheres a acusaram do mesmo crime, porém com a agravante de que a senhora mediante simulação de doença as chamava em sua casa para que pudesse assediá-las.” Tens algo a acrescentar que seja em teu favor?Felipa estava horrorizada com o que acabara de ouvir, quantas mulheres a acusavam? Quem seriam elas? Atônita, disse:- Confesso que por extrema solidão e sofrimentos pessoais mantive um caso de amor carnal e muita afeição com a senhora Paula Siqueira, mas dos outros casos não posso nada afirmar.Pressionada pelos inquisidores, escuta mais uma vez:- É melhor que confesses a tua culpa, diante da qual possuímos provas concretas e irrefutáveis. Mais uma vez, repetiu:- Confesso que com a senhora Paula de Siqueira mantive um relacionamento, com o seu consentimento, por pouco mais pouco menos de dois anos, as demais acusações nada sei a respeito. Não me nego a assumir a verdade, mas diante de falsas acusações nada posso dizer.E a resposta dada por Felipa foi a mesma durante todo o período do interrogatório.Impacientes com a sua recusa em confessar todos os crimes a ela imputados, continuaram:- Diante da tua recusa em te declarares culpada de todas as acusações que te são atribuídas, nada nos resta a fazer, já que não temos dúvidas de que são verdadeiras, do que te consideramos culpada, e que se cumpra a pena que será aqui estabelecida, por ordem deste tribunal, e honra da Santa Inquisição.E antes que pudesse dizer mais uma palavra, Felipa diz em alto e bom tom:- E as que me acusaram? Elas nada sofrerão? São culpadas e jogaram todas as misérias das suas vidas sobre mim, se me culpam de levá-las a cometerem tais atos, elas fizeram-no tanto quanto eu. Nada fiz sozinha, nada, e em nada forcei ninguém a estar comigo.No meio do seu desabafo, não percebe que o inquisidor dá ordem para que pare de falar, e aceite o fato de que a devassa e culpada pelos pecados contra Deus era ela própria, e como nada a fazia calar-se, ordena que a calem.Felipa sente o peso da mão do guarda na sua face, uma, duas... várias vezes, e para sua própria surpresa cala-se.Sentindo-se nauseada, baixou a cabeça e esperou pela resposta.Deram por encerrado o interrogatório, e foi declarado que na manhã seguinte ela passaria pelo Auto-de-Fé, onde receberia a sua sentença em praça pública.Auto-de-Fé, repetia para si mesma... Sabia o que aquilo significava.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-1920816587587721336?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/1920816587587721336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=1920816587587721336' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/1920816587587721336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/1920816587587721336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xix.html' title='CAPÍTULO XIX'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-1234258844797744752</id><published>2007-09-20T04:59:00.000-07:00</published><updated>2007-09-20T05:00:17.347-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XX</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dia 24 de janeiro de 1592.Amanhecia, o sol começava a raiar na promessa de um dia lindo, céu azul, nenhuma nuvem, escutava-se o canto de milhares de pássaros naquela alvorada.Tudo estava tranqüilo e silencioso, a cidade estava acordando, as pessoas iam se aglomerando próximo ao caminho que ia da prisão até a Igreja da Santa Fé.Sabiam que aquele dia não seria igual aos outros, panfletos e avisos foram espalhados em toda a cidade dando ciência à população que haveria o Auto-de-Fé de uma prisioneira do Santo Ofício. O nome da prisioneira estava bem claro, Felipa de Souza.Não houve amanhecer para aquela mulher. Ela não dormia há três noites, a lembrança do dia anterior ainda trazia marcas bem vivas em sua mente. As dores que sentia não eram físicas, mas sim emocionais.Tinha se preparado para tudo, mas não sabia qual o tamanho desse tudo que deveria suportar.Seu semblante era assustador, o medo já fazia parte dos olhos, do rosto, do corpo dela. Não sabia o que ia acontecer, mas sabia que teria que suportar o insuportável. Era apavorante.Assim que a cela clareou, a porta se abriu e entraram dois homens e um inquisidor. Traziam consigo uma túnica, uma tesoura e uma vela. Felipa não sabia como aquilo seria utilizado, mas estava petrificada pelo medo e nada mais poderia assustá-la.Em tom de ordem e sem nenhum respeito sentaram-na em uma cadeira como um boneco de pano. Não sentia seu corpo. O homem com a tesoura nas mãos começa a puxar seu cabelo.Pensava, pela primeira vez naqueles dois dias, com um mínimo de raciocínio: - Meus cabelos, meus cabelos, negros e longos. - Lembrava o quanto haviam sido acariciados e amados por Lise, a única pessoa em que conseguia pensar naquele momento. E chorou...O homem, sem nenhuma pena, cortava-os rente à cabeça. Seu couro cabeludo, muitas vezes atingido pela tesoura, sangrava. O serviço não levou mais que alguns minutos. Ao final seu rosto estava transformado, parecia uma louca, alguns tufos eram maiores que outros, e parte do couro, em certos lugares, estava exposto.As lágrimas não pararam mais de correr em seu rosto.O homem arrancou-lhe o grosseiro camisolão e a vestiu com o sambenito, veste de linho cru e áspero. De pé ali naquela cela Felipa resolveu não sentir mais, não chorar mais, não se submeter ao que esperavam que seria sua reação. Levantou-se e disse a si mesma:- Estou morta, não sinto mais nada, o que tinham que me tirar já foi-me tirado, esta pessoa que está aqui, sem saber o que vai acontecer suportará em silêncio e sem verter mais nenhuma lágrima. Morro aqui e agora por minha própria decisão, Felipa de Souza está morta. A mulher que sairá por aquela porta será apenas o seu cadáver. Não olhará para os lados, não se intimidará perante os olhos que a acusarão, não sentirá nenhuma dor.Os homens saíram e a deixaram lá esperando.Vida nenhuma se espelhava em seus olhos quando a porta se abriu novamente e padre Pedro entrou e parou à sua frente, completamente chocado com o que viu.Olhou-a como se aquela não fosse a mulher com quem passara dias, quase um mês, para ser mais exato, sentado ao seu lado ouvindo o que de mais profundo trazia em sua alma.Num tom quase inaudível, sussurra:- Felipa...Silêncio, nenhuma resposta.Tenta mais uma vez:- Felipa?Ela não responde.Chega perto daquela triste figura, toca em seus cabelos, sente seu corpo reagir, vê todos os seus músculos retesados e, criando coragem, olha em seus olhos.Nada vê, busca algum sentimento, não acha. Onde estaria Felipa, como puderam fazer isso, e ela mal sabia ainda o que estava por vir. Tenta pela última vez:- Felipa, sei que está em algum lugar desse corpo, mas não me responde, sei que pode ouvir-me mesmo que nada me diga, mas não me vou calar. Vim abençoar-te, embora não saibam que aqui estou para isso, e conceder-te o perdão por tudo o que viveu, mas especialmente vim aqui pedir-te que me perdoe por fazer parte desta injustiça, violência e maldade. Já nem sei onde está Deus nos atos destes homens. Perdão, Felipa. Como meu último ato vestindo esta batina, posso e devo libertar-te. Deus perdoa-lhe, não sei se perdoará estes homens, mas a você, sim.Ela continuou como se nada ouvisse.Pedro já não se considerava mais parte daquele complô em nome de Deus, sabia que Deus não faria isso, pois fizeram-no ao Seu Filho, e Ele jamais teria vindo como filho à terra sofrer pelos homens para que outros homens continuassem a tentar fazer o Seu papel. Deus estava acima de todas aquelas coisas.Pedro não sai do lado dela, até que outros homens entram e avisam:- É a sua hora, levante-se!Automaticamente reagindo às ordens dadas, ela levanta-se.- Siga-nos - dizem.Ela segue-os sem ver nada ao seu redor, sente que o padre Pedro está ali, mas nada consegue expressar, os seus sentimentos estavam mortos pelo tempo que fosse necessário.Sobe as escadarias que desceu pela primeira vez há seis meses atrás, sem identificar onde está. Chegam à porta da prisão. O sol ofusca a sua visão, mas os seus olhos estão secos, aperta-os um pouco como única reação aos dias que ficou sem poder senti-lo em seu corpo.Entregam-lhe uma vela grande e mais grossa que as outras, acendem-na, dizem mais uma vez:- Siga em frente.Descalça, vestida com a túnica, os cabelos mutilados, Felipa segue alguns homens que estão à sua frente sem conseguir identificar nenhum.Pedro pára na escadaria da prisão, seguindo de longe o cortejo daquela vítima. A revolta não lhe sai do pensamento, a sua vontade é correr e tirar Felipa daquela situação tão humilhante.As ruas estavam lotadas, as pessoas apertavam-se para vê-la passar, sem deixar de imputar cada um seu julgamento.Um grande palanque havia sido levantado em frente à Igreja da Fé, para permitir o acesso das autoridades sem interferência do povo. Inquisição, clero, autoridades civis e militares tinham lugares rigorosamente determinados no palanque, rodeando um altar onde seriam realizados os ritos principais. A parte frontal, entre as autoridades e o povo, estava destinada à Felipa de Souza. Todas as autoridades de Salvador se faziam presentes, para que o brilho da solenidade não fosse empanado.O cortejo que levaria Felipa até a Igreja era constituído pelo carregador de uma arca que seria conduzida com muita distinção, contendo o Regimento do Santo Ofício, um dos cadernos dos inquisidores, o livro em que está a forma de absolvição dos reconciliados, tinteiros e papel para escrever no Auto, sendo necessário, e o meirinho, as demais pessoas do clero e algumas do Tribunal que estavam em Salvador.Ao avistarem Felipa os moradores da cidade xingam, cospem, dizem palavras para que ela se sinta mais humilhada do que já poderia estar. Mas ela passa em meio ao povo sem olhar para os lados, sem ouvir os impropérios que lhe são dirigidos. Seus pés doem ao percorrer o caminho, machucam-se nas pedras das ruas, sangram, mas nenhuma lágrima escorre. Nada!Mulheres que foram suas clientes e amigas, homens que a conheciam desde menina, parte de sua vida estava ali condenando-a, olhando-a como a uma aberração.Os gritos começam a ficar mais altos conforme vai seguindo o caminho:- Doente!- Sua imunda!- Herege!- Louca!- Filha do demônio!- Merece mais que isto!Uma voz se sobressai na multidão, e ela ouve a voz da qual conhecia os sussurros e os gemidos, mas que agora grita:- Sua pervertida, imoral!!! Paga pelo teu crime agora!Paula, Paula... A sua cabeça volta-se pela primeira vez os seus olhares encontram-se. Como numa conversa muda, Felipa fixa bem os olhos de Paula e pela primeira vez pensa, ganhando forças com isso:- Traidora! Tu devias estar aqui comigo agora e sabes bem disso, porque és mais imunda e pervertida que qualquer criatura debaixo deste sol.Paula parece sentir o pensamento, e para felicidade de Felipa ela finalmente baixa os olhos.Felipa continua seu penoso caminho, machucada, sangrando, mas sentindo-se bem pelo acontecido.Como o ritual estava sendo realizado fora do Tribunal da Inquisição, não foi possível realizar todas as exigências de sua feitura. Porém, o que pôde ser feito, assim foi realizado.Chegam em frente à Igreja da Santa Fé. Param, colocam-na no topo da escadaria e um homem sem fisionomia nenhuma pára a seu lado.O inquisidor ordena que Felipa se ajoelhe e coloque uma das mãos sobre a Bíblia que ele segura, e começa a gritar para que todos possam ouvi-lo:- Esta mulher que aqui se encontra é declarada culpada pelo Auto de Fé por crime sexual de práticas nefandas. Confessou o seu crime e será punida com o exílio para Portugal, para que permaneça pelo resto da sua vida encarcerada. Será açoitada publicamente, e será extraditada da cidade de Salvador, do estado da Bahia, e do Brasil, sendo considerada doente mental. Ainda terá que pagar pelos custos do processo o valor de 992 reis, equivalente ao salário mensal de um marinheiro. Caso não possua esta quantia, deverá pagar com três meses de trabalhos braçais, para que sirva de exemplo aos cristãos. Esta é a vontade cumprida e declarada pela Santa Inquisição e pelo seu Tribunal competente em Lisboa.Depois de lida, a sentença - assinada pelos inquisidores e selada com as armas do Santo Ofício, foi depositada nas mãos do Corregedor do Crime da Corte escolhido para recebê-la.O silêncio reinava em toda a Igreja.Felipa é posta de costas e amarrada a um pelourinho, para que o público possa assistir sua punição. Começam a açoitá-la, os homens que lhe desferem os golpes o fazem com tamanha brutalidade e precisão que não é possível alguém contar quantas vezes atingiram seu corpo.Ela permanece imóvel e de pé enquanto seu corpo agüenta. Após ser açoitada por um tempo determinado que ninguém sabe precisar, causando surpresa pelo quanto suportava, rende-se e seu corpo desfalece.A população assiste a tudo sem demonstrar nenhum sentimento de piedade.Apenas uma mulher chorava escondida entre a multidão: Quitéria. Ela e Pedro eram as duas únicas pessoas que realmente sabiam quem era aquela mulher de fibra, que se manteve digna apesar de tudo e todos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-1234258844797744752?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/1234258844797744752/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=1234258844797744752' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/1234258844797744752'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/1234258844797744752'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xx.html' title='CAPÍTULO XX'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-3006623420344675806</id><published>2007-09-20T04:57:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T04:57:34.157-07:00</updated><title type='text'>CAPÍTULO XXI</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se seis meses desde o martírio de Felipa. Pedro sofrera uma grande ameaça da Igreja por desistir do celibato e abandonar o hábito. Em uma época onde pessoas eram perseguidas por qualquer motivo, e esse, com certeza, seria bom e dos grandes. Enfrentou a ira do bispo e de outros membros para que pudesse viver em paz.Foram quase três meses de luta contra o clero, mas no final conseguiu convencê-los de que não estava preparado para assumir um compromisso tão “importante” com a humanidade, que era muito pouco abnegado para que sua vida fosse abençoada por Deus daquela forma, achava que seus erros eram maiores que suas virtudes, e que o clero deveria ser constituídos apenas por homens virtuosos. A vaidade é um pecado que encontra-se em todos os lugares, quanto menos vaidoso alguém se julga, mais é.Pegou a todos pelos próprios erro, mas acabara perdera um tempo, para ele, de extrema importância, de cumprir a promessa feita para Felipa.Pensava nela constantemente, mesmo enquanto estava servindo em Salvador e na Igreja da Fé. Nada soube do seu paradeiro, ela desaparecera, sabia apenas que tinha sido expatriada para Portugal. Havia tentado localizá-la, mas foi inútil. Era como se ela nunca tivesse existido.Após abandonar o hábito e a Igreja, concentrou sua busca em Elise. Sua primeira parada foi na velha casa que ela ainda mantinha em Salvador. Os escravos que lá trabalhavam pouco sabiam à respeito da vida de sua senhora, tinham apenas o endereço de sua casa no Rio de Janeiro. Já era alguma coisa para quem achava que iria procurar agulha em palheiro.Viajou de Salvador para o Rio graças à bondade de amigos feitos enquanto padre, que o apreciavam e compartilhavam do sentimento de injustiça que a Inquisição despertava em seus corações.Ao chegar ao Rio, hospedou-se onde um amigo de Salvador lhe indicara; foi ao o endereço onde morava Alberto Dias, poeta e judeu, que conseguira sair do Nordeste antes de toda perseguição sofrida por seu povo, porém vivia clandestinamente no Rio. Pouquíssimas pessoas sabiam da sua real condição. Mas Pedro nada tinha contra ele, e aceitou a oferta de bom grado.Munido do endereço de Elise, foi até lá. Ao chegar, deparou-se com o mesmo luxo que havia na casa em Salvador. Foi até à porta e bateu forte, prevendo que, se houvesse alguém cuidando da casa, possivelmente só o ouviria se ele batesse alto.Qual foi não foi sua surpresa quando a porta foi aberta, quase de imediato, por uma escrava. Encheu-se de ânimo e perguntou por Elise.A resposta o decepcionou sobremaneira, ela havia estado no Rio há menos de um mês, e que seria bem provável, que a senhora teria voltado para sua terra natal. Mas qual seria essa bendita terra? Informou à escrava que precisava encontrar sua dona com uma certa urgência, mas que não sabia onde era a terra de onde ela veio.A escrava mais uma vez deixou que a decepção invadisse o peito de Pedro, ela também não sabia com certeza onde era a tal terra. Perguntou-lhe então se sabia quando ela voltaria para o Brasil. A escrava disse que não sabia se ela já teria viajado, que tinha quase certeza que não, pois tinha que estar de volta ao Rio em meados de setembro, e achava que a dona tinha ido a Salvador.Pedro se surpreende e pergunta à negrinha:- Como sabes que ela foi a Salvador?A moça, percebendo que tinha sido pega numa enrascada, pede segredo e conta:- Sabe o que é sinhôzinho, eu ouvi uma conversa de que a casa dela lá tava meio que abandonada, e a sinhá disse pro Dotô Henrique que ia tê que passá por lá antes de vortá pra terra dela.Pedro volta a questioná-la:- Então com certeza em pouco mais ou pouco menos três meses ela estará de volta ao Rio?- É sim, sinhô.Ele agradece a ajuda e as informações e volta para a casa onde estava hospedado. Precisaria ficar mais tempo do que o previsto no Rio, não havia pensado para onde iria. Afinal, não saberia mesmo para onde ir, não morava mais em lugar algum, teria que pensar em sua sobrevivência, coisa que a Igreja sempre fez por ele.Uma grande e sincera amizade nasce entre Pedro e Alberto. Cada qual a sua maneira entendia o que era a perseguição da Igreja, e por saberem exatamente o que aquilo significava, tornaram-se amigos.Sua rotina durante dias já estava traçada, sairia em busca de um ofício. Após quase um mês de procura conseguiu um emprego, graças aos conhecimentos adquiridos em sua educação religiosa, que abrangia várias áreas do conhecimento, inclusive matemática, como fiscal de impostos, o que não era comum. Não que entendesse do assunto, mas dominava bem assuntos pertinentes à função, o resto poderia aprender com facilidade.Mesmo tendo conseguido um bom emprego, continuou a morar com seu amigo, dividindo as despesas da casa. Passaram-se os dias, havia se acostumado à nova vida, mais fácil do que imaginara, se bem que ainda estranhava o fato de vestir roupas comuns. Resquícios do hábito!Aproximava-se o dia em que era esperada a volta de Elise, e Pedro passou a sentir-se mais ansioso. Sabia que teria que falar com a mulher que havia sido amante de Felipa, muitas vezes sua moral cristã falava mais alto do que sua própria vontade. Mas o prometido seria cumprido, assim dizia.Assim criou o costume de todas as manhãs, antes de ir para o serviço, caminhar diante da casa de Elise na esperança de ver algum sinal da sua volta. A carta de Felipa não saía de seu bolso, estava pronta para ser entregue, e sua missão seria complicada, explicar o que havia acontecido demandaria coragem e muita força.Até que, certa vez, notou a presença de luzes na casa, podia ver as sombras bruxuleando no tecido da cortina.E agora... ? - pensou. - Bato já à porta ou espero o amanhã?Indeciso, mas temeroso de que ela se fosse antes que pudesse lhe falar, dirigiu-se à casa, bateu o sinete e esperou que alguém abrisse, enquanto sentia um frio estranho na barriga.A mesma negrinha que o atendeu da primeira vez abriu a porta:- O que o sinhô deseja?- Boa noite! Por favor, lembra-te que cá estive há tempos atrás à procura da senhora Elise? Gostaria de saber se ela está, vi luzes quando passava em frente...- Ela está sim sinhô, um momentinho, vou avisá a sinhá, a quem devo anunciá?- Ela não conhece-me, diga apenas que é um amigo de Felipa, de Salvador.A escrava entra, fecha a porta, e o deixa aguardando do lado de fora da casa. Passam-se minutos, para ele parecem horas, até que a porta se abriu novamente.- Sinhá pediu pro sinhô entrá. Me acompanha.Sem pensar e reparar onde estava sendo levado, seguiu a moça, que atravessando um grande hall, e algumas salas, para em frente a porta de um cômodo, que aparentava ser um escritório ou coisa similar. Ele entra e a porta é fechada atrás de si. Meio perdido, não sabendo para onde dirigir o olhar, escuta uma voz suave, com um leve sotaque, imediatamente soube que era Elise quem lhe dirigia a palavra:- Disse à Belinda que é amigo de Felipa, o que o traz até minha casa?O tom frio da recepção foi algo que não esperava daquela mulher. Será que todos aqueles anos em que Felipa lhe dedicou um amor inesquecível receberiam a mesma paga dos que os outros que amou e conviveu? Sua mãe, o Capitão, seu marido, e agora Lise, sua amante?- Perdoa-me a intromissão, mas trago-te uma carta de Felipa e gostaria de sair ao entregá-la. Acho que não ficarei cá esperando que leias como Felipa pediu-me.Elise pega a carta de suas mãos e dirigi-se à porta. Antes, porém, faz uma única pergunta:- Como ela está?A resposta foi seca, Pedro já estava cansado de ver a reação de todas as pessoas em quem Felipa confiou, não queria mais uma vez ver que os sentimentos de Felipa, haviam sido desprezados por todos. Não assistiria o descaso e a falta de amor por aquela mulher que tanto admirou, mais uma vez, não havia nada que o fizesse ficar, não era mais um padre.- Provavelmente morta. Disse secamente, sem emoção alguma, não pela perda de sua confidente, mas pela falta de sentimentos que sentiu por parte daquela mulher.Viu que Elise cambaleou diante dele, amparou-a, e sentou-a em uma poltrona. O olhar da moça era de completo terror.- Não andas-te por Salvador? - perguntou à Elise. Não ouvis-te a boataria sobre o acontecido?- Não sei de nada, mal parei em Salvador, na verdade estava em Recife. Quem é você? - perguntou Elise, sem cerimônia nenhuma.- Fui amigo e confessor de Felipa, enquanto era padre, por favor, leias a carta, estou a sair.- Não!!! Espere! Ela lhe pediu para aguardar enquanto eu lesse, foi o que disse, então, por favor!!!Sentou-se a contragosto onde a mulher lhe indicou e esperou.Com as mãos trêmulas Elise abre o envelope fechado com o lacre da igreja, o único que Pedro pôde usar para que a carta não ficasse exposta.“Querida Lise,Quem dera pudesse ser eu mesma a levar-te esta carta, pois desta maneira, não precisaria de escritos, seria eu mesma a dizer-te tudo que estou a sentir.Toda minha vida nunca pensei que fosse encontrar o amor da maneira que encontrei, foi surpreendente como ele mostrou-me à mim que nem dei-me conta a princípio, que era amor, precisei sentir-te a pele junto à minha, para que meu coração pudesse abandonar-me o corpo e juntar-te ao teu. Agora sinto-me vazia, não ter-te perto foi morrer-me aos poucos. O que restou-me não possuía nenhuma importância que valesse à pena manter-me viva.O que fez-me sobreviver foi a tua lembrança, teu sorriso, teus olhos, tua boca, os caminhos que percorremos nós. E o que há de manter-me forte no que está por vir será esta mesma lembrança.Não preocupe-te com o que foi-me feito de meu destino, aprendi que existem coisas eternas, a mais eterna de todas é o verdadeiro amor.Quantas vezes desejei-me ir ao teu encontro e, fraca, não o fiz... Tola, eu! Sabia que sem tua presença a vida não valeria-me nada, culpei-me amargamente por ter tido pensamentos moralistas, e não ter-me ido contigo, hoje não os tenho mais. Enfrentaria tudo por ti.A intenção de escrever-te não era entristecer-te... Era sim tranqüilizar-te...Queria que sentisses que estarei contigo eternamente. Basta que penses no amor que tivemos.Estou eu aqui a escrever-te tantas coisas e nem imaginando se tu ainda sentes algo por mim, tola...Deixes que eu seja tola, deixes que eu acredite que teu amor é tão imortal quanto ao meu, deixes que eu acredite que nossa vida fundirá-se numa só quando encontrarmos-nos de novo. Deixes que eu creia...Lise, minha Lise eterna e amada Lise...Despeço-me agora, meu tempo é curto, a pessoa à entregar-lhe esta carta, falar-te-a sobre isto.Queria apenas que soubesses que amo te e amarei-te por toda a eternidade. Sei que Deus há de aceitar-nosPerdida estou eu em meus pensamentos e perco-me ao tentar-me coordenar as idéias.Perdoe-me.Amo te, eternamente tua,“Felipa”Dobrou a carta e perguntou a Pedro: - O que houve? Parecia chocada.Pedro lhe contou tudo o que havia acontecido, todo o martírio de Felipa, seu sofrimento, seu amor, sua sentença, descreveu da maneira menos dolorosa possível. Contou de sua tentativa de encontrá-la, e de como foi à sua procura para entregar a carta. Falava como se precisasse jogar para fora, o que o manteve ansioso até aquele momento, quase nem reparando na moça sentada bem próxima a ele.Elise olhava para Pedro como se nada do que ele tivesse dito fizesse sentido.De repente, um grito abafado e um choro compulsivo invade o ambiente. Pedro vê desabar a mulher que se mantinha fria até então. Não sabe que atitude tomar, aproxima-se, coloca a mão em seu ombro, Elise se agarra a ele num gesto desesperado, e assim permanecem...Quando finalmente ela acalma, diz a Pedro:- Saiba que amei Felipa como nunca amei ninguém. Tive durante esses anos imensa vontade de vê-la, mas meu orgulho foi mais forte. Idiota que fui. – Olha diretamente para o homem a sua frente e diz: - Procurou-a por todos os lugares? Tem certeza absoluta que não esqueceu de nenhum local possível? - pergunta, aflita.- Sim, e como ainda era padre tinha contatos em Lisboa, mas ninguém ouviu falar o nome dela.Visivelmente abalada, lhe diz:- Quero lhe agradecer tudo o que fez por Felipa e dizer que continuarei a procurá-la, não desistirei.- Tem certeza que ficarás bem? – Pergunta preocupado com a moça.- Por favor não se preocupe, já fez mais do que deveria. Sei que a acharei.Pedro se despede, deixa o seu endereço para o caso de ser necessário em alguma ajuda e se retira do aposento em direção a porta da casa.Do lado de fora, no paço, olha o céu coberto de estrelas e murmura:- Está feito Felipa, cumpri o prometido, agora é contigo e Deus.Aliviado, segue seu caminho até se perder na escuridão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-3006623420344675806?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/3006623420344675806/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=3006623420344675806' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/3006623420344675806'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/3006623420344675806'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/captulo-xxi.html' title='CAPÍTULO XXI'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6901840512991459219.post-3049473785796238381</id><published>2007-09-20T04:54:00.001-07:00</published><updated>2007-09-20T04:54:58.173-07:00</updated><title type='text'>EPÍLOGO</title><content type='html'>Paula, a delatora de Felipa, foi condenada a apenas seis dias de prisão - depois de pagar 50 cruzados - e a duas aparições públicas como ré, além de um sem número de penalidades espirituais.&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;A história aqui contada é uma ficção, mesclada com fatos reais.Da verdadeira história de Felipa, pouco se sabe. Os escritos sobre sua pessoa, sempre tem o mesmo texto, ou mínimas alterações de uma mesma fonte.São essas algumas citações:“Felipa de Souza, 35 anos, letrada, era casada, mas gostava de mulheres. Teve romance com pelos menos seis moradoras de Salvador. Presa, acabou confessando, foi açoitada e obrigada a ouvir sua sentença na igreja da Sé, em pé, com uma vela acesa na mão e trajando o sambenitoveste de linho cru áspero, usada para identificar os heréticos. Por fim, Felipa foi expulsa para sempre da Bahia”.“Felipa de Souza nasceu em Portugal em 1556 e veio para o Brasil ainda menina”. Filha de Fulana Gonçalves e Manoel de Souza, trabalhava como costureira e era casada com o padeiro Francisco Pires, com quem vivia em Salvador. Felipe era alfabetizada, o que era extraordinário, em uma época onde a maioria das mulheres não sabia ler, nem escrever. Tinha 35 anos quando soube ter sido acusada pelo Santo Ofício por práticas nefandas. Presa em 1891, confessou ter tido inúmeros casos com pessoas do mesmo sexo, por quem sentia amor. Em seus depoimentos falou de sua solidão e descreveu também como assediava as mulheres, fingindo estar doente e acamada. Foi severamente punida pela Inquisição. Em 24 de janeiro de 1592, foi obrigada a sair da prisão do Santo Ofício e seguir descalça, vestindo uma túnica branca e segurando uma vela na mão até a Igreja da Santa Sé, em Salvador. Ouviu sua sentença e foi barbaramente açoitada em público. Foi degredada do Brasil e morreu no exterior. Por ter sido a mulher mais humilhada e castigada da colônia, recebeu como homenagem o principal prêmio internacional de direitos humanos do Homossexuais, o "Felipa de Souza Award".“Em 1593, uma mulher brasileira chamada Felipa de Souza foi torturada pela Inquisição portuguesa, acusada de praticar lesbianismo”.Sua história também é descrita pelo IGLHRC da seguinte maneira:“In 1591 the Inquisition began its notorious "confession sessions" in the northeast of Brazil, basing their operations in Salvador, then the capital of the Portuguese colony. The aim of these sessions was to search for and arrest those accused of sins and crimes against the faith and sexual morals. Amongst the first to confess was Paula de Sequeiro who, on August 20, accused a widow named Felipa de Souza -- from whom she had been receiving love letters for two years -- of having shared many moments of physical pleasure.As the "nefarious and abominable crime of sodomy" was punishable by death, and knowing that the Inquisitors were sympathetic to those who volunteered confessions, many panic-stricken women came forward and admitted to intimate relations with Felipa.Felipa had previously been expelled from a convent in Portugal for the crime of sodomy. She must have caused a good deal of apprehension in the small Salvador, as she was the only one of the accused women to face the Inquisition's court. During the trial, she admitted to having had intimate relations with the woman mentioned, brazenly stating that "all those communications provided her much love and carnal affection."Found guilty, Felipa's sentence was less severe than that doled out to other women accused of the same crime in Europe at the time. On January 4, 1592, she was condemned to exile. Holding a lit candle, barefooted and wearing a simple tunic, she was viciously whipped while walking the streets of Salvador so she could serve as an example to all the inhabitants. As spiritual penance, she was forced to fast on bread and water for 15 Fridays and 9 Saturdays. She was then expelled from the state of Bahia, taking with her "her vices and ill reputation." Besides the shame and public humiliation of her punishment and exile, Felipa de Souza had to pay for the trial costs: 992 reis, at the equivalent of a sailor's monthly salary, or three months of a manual laborer's pay”.Based on an extract from O Lesbianismo no Brasil, by Luiz Mott (Mercado Aberto, 1987).O Órgão não Governamental Americano IGLHRC ( International Gay and Lesbian Human Rights Commission). A considera o maior mártir da causa homossexual, símbolo mundial dos maus tratos, tortura e da repressão do direito do cidadão, em escolher sua opção sexual.Esse órgão trabalha com pessoas que contribuem nos assuntos referentes à comunidade homossexual mundial, sua meta é assegurar, dentro do possível, que direitos humanos desses cidadãos, sejam respeitados, oferecendo assistência jurídica, acesso à documentação, instrução pública e auxílio técnico, no que for tocante à questões de abuso contra os homossexuais.Anualmente a IGLHRC, procura honrar uma organização ou um indivíduo independente de raça, país ou cultura no mundo, que tenha contribuído de forma significante na defesa dos direitos da comunidade gay e lésbica, no tocante à tortura, maus tratos, abusos, discriminação e preconceito para com os portadores do vírus HIV,Através desse prêmio, a organização espera trazer o reconhecimento do público em geral, para aqueles que lutam contra todo tipo de intolerância, que sofrem os homossexuais.Felipa de Souza Award, é o nome do prêmio concedido anualmente a esses cidadãos, desde de 1994. Vem agraciando pessoas de todos os continentes em prol da defesa dos direitos humanos de gays e lésbicas.O que poderia ser um grande orgulho para o Brasil, é um fato quase totalmente ignorado, aqui nem se sabe quem foi essa mulher, e o porquê dela ser considerada um exemplo, uma mártir da luta pela liberdade de expressão sexual.O fato desse descaso com a história de personagens brasileiros, é comum no país, e cabe aos próprios cidadãos divulgar o que aconteceu e acontece, com a nossa verdadeira história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6901840512991459219-3049473785796238381?l=felipadesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://felipadesouza.blogspot.com/feeds/3049473785796238381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6901840512991459219&amp;postID=3049473785796238381' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/3049473785796238381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6901840512991459219/posts/default/3049473785796238381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://felipadesouza.blogspot.com/2007/09/eplogo.html' title='EPÍLOGO'/><author><name>Contadora de histórias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
